Guerra de Titãs – Por Bernardo Gomes Barbosa Nogueira

Guerra de Titãs – Por Bernardo Gomes Barbosa Nogueira

Por Bernardo Gomes Barbosa Nogueira – 29/04/2016

“Amor em trânsito”. Transitar pelo amor. Amar é transitar. Transe e amor. Amor em transe. O espaço de Buenos Aires, cortado por algumas referências à Espanha é o cenário em que o filme “Amor em trânsito” de Bruno Carmelo passeia. O filme nos enreda desde o título, pois fica-nos mesmo a impressão da fluidez da existência. Ou seja, o filme nos dá os contornos do imprevisível e, sobretudo, desafia a noção linear de tempo quando esse deus se relaciona com outro, o amor. Assim, imprevisível é aquilo que não se pode vislumbrar, mais aquilo que não se pode prever. E o amor é assim, não é explicável, tampouco, previsto, quando chega inaugura um novo tempo. Confunde-o. E a partir daí não é mais sabido onde inicia, finda e é meio o existir. Misturados vivem passado, presente e futuro no devir da possibilidade de amar.

Há uma lenda em que e morte acena em um mercado para o súdito de um reino, ele assustado foge para outra cidade, e seu rei, revoltado, vai reclamar à morte, ela, serena, diz: – eu apenas queria falar a ele que teríamos um encontro exatamente na cidade pra onde ele fugiu. Bom, o tema do filme não é a morte. No entanto, é tragédia. Porque o amor é esta tragédia da qual não podemos nos desvencilhar dada sua condição aprioristica no existir do homem.

Desde sempre estamos lançados ao tempo. Tragicamente. Contudo, quer-se fazer escolhas, determinar direções, planos e vôos. Não é em vão que o filme inicia em um aeroporto, local de idas e vindas, encontros e despedidas, ausências e partidas. E isso se alia à constante presença de mapas a determinar as direções do transitar pela vida de cada personagem. É um filme sobre o tempo. Mas, sobretudo é um filme sobre a inexistência dele. Aliás, é um filme sobre o momento em que o sentimento do amor imprime um sentido dentro desta selva desvairada que é o viver.

Não seria necessário narrar precisamente os encontros e desencontros dos personagens do filme. Exatamente pela simplicidade da tragédia que perpassa o filme, é que somos levados a perceber que mesmo possuindo escolhas e decisões, o tempo, quando em relação com o amor, realmente confunde-se num único presentficar-se que é também o que foi e o que será. A tragédia do existir humano estaria na questão de que quando ele é amor, é também tragédia. Amor como tragédia no sentido de inevitável. Pois, assim como na tragédia, o personagem foge de seu destino, e ele sorrateiro, o encontra pela estrada. Aqui a sucessão de desencontros mostra a face trágica do amor. E ele, também por se portar de maneira clandestina ao tempo linear, confunde os princípios racionais e quando estamos em seu leito é só sertão – que não tem fim, tampouco início, ou os dois, misturadamente.

Poderíamos dizer que o trânsito insinuado no título é o do amor. Contudo, quem transita aqui é a ideia de que o amor perpassa a ordem temporal. Não a respeita. Chama pra dançar, em um baile em que os convidados somos nós. Tragicamente lançados no tempo sem que tenhamos a possibilidade de possui-lo. Assim, somos consumidos e ingenuamente escolhemos aquilo que já estivera determinado. Caminhamos passivamente pela estrada escrita pelo amor, em direção a ele ou em direção oposta. Mas sem que possamos dele desvencilhar posto que é condição de nossa humanidade. E mais uma vez, de nossa tragédia.

Transitar ou transeunte. O verbo é conjugado por quem ama? Ou é ele um sujeito passivo dessa relação? E o tempo? O que é? Passado, presente e futuro? Os ponteiros?

As questões que o filme nos deixa são estas. Não haveria respostas acabadas para nenhuma delas. Sabe-se apenas que desde o primeiro suspiro o humano está condenado à ciranda do viver. Que é tragédia e que é sopro. E que sabe-se apenas como ser que caminha para a morte. Enquanto isso ela brinca nos dando regras. Se a seguirmos, encontramos a ela. Se não, também.

Talvez, por desde sempre estarmos fadados a esse encontro. Talvez por sabermos o tempo perturbado pelo amor. E talvez por não sabermos dele, convenha errar em aeroportos, bares e calles. À deriva de sua tragédia, que é início, fim e meio, circular e misturadamente. Pois, “é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã, porque se você parar pra pensar, na verdade, não há”…


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Bernardo Gomes Barbosa Nogueira é Doutorando em Teoria do Direito pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais; Mestre em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Especialização em Filosofia pela Universidade Federal de Ouro Preto. Professor da Escola de Direito do Centro Universitário Newton Paiva.
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