Genoveva, uma caboclinha saliente? Nem tanto… – Por Elisabeth Bittencourt

Genoveva, uma caboclinha saliente? Nem tanto… – Por Elisabeth Bittencourt

Por Elisabeth Bittencourt – 25/05/2016

Saliente, conforme o linguajar maranhense, quer dizer: aquela que é pra frente, aquela que toma gosto, que é atrevida, saidinha…

Por onde será que ele andava? Deolindo, que era um marujo de primeira, havia saído para uma “longa viagem de instrução” (Assis, 2007, p. 289). Haviam se conhecido três meses antes de ser exigida dele essa viagem. Tiveram até um ímpeto de largar tudo, de mudar a vida de uma só vez, ele largava a marinha e iam juntos para um interiorzinho qualquer viver esse imenso amor que não era qualquer. Dona Inácia, com quem Genoveva morava na Gamboa, perto da Praia Formosa, aconselhou que o casal não fizesse tal temeridade. E assim Deolindo parte para uma viagem por lugares distantes…

Mas… partir como se aquele imenso amor não existisse, era desafiar o coração… Era necessário algum expediente. Não se passa por isso assim, assim… É preciso algum ritual para encaminhar o passo seguinte. Deolindo e Genoveva juram fidelidade: “que a luz me falte na hora da morte” (Assis, 2007, p. 290).

É com esse sentido na cabeça que Deolindo, dez meses depois, chegado de viagem, vai até Genoveva imaginando a noite de Almirante que vai ter. Isso porque logo quando saía da corveta seus colegas já o gabavam: vai ter uma noite de Almirante, hein?

Nesse espírito, Deolindo vai em busca de sua Genoveva, fresquinha e solta em seus 20 anos. Pelo caminho, inocente como um cordeirinho, ele pensa na caboclinha cheirosa e cheia de inteligência. Logo chega à rótula de dona Inácia, com quem Genoveva morava, e vai logo tomando ciência de que… Genoveva? Genoveva já estava com outro, um mascate que morava lá pelas bandas da Praia Formosa…

Deolindo da Venta-Grande, como era chamado por seus colegas, assustado com a novidade que a jura de fidelidade não aventava, é tomado pela ira do macho: vai matá-lo. Sente cheiro de sangue e segue caminho. Encontra Genoveva cosendo, sentada à janela; ela, surpresa com a presença do antigo amor, convida-o a entrar.

A partir daí, Genoveva começa a se revelar. Juras? Pactos? Como cumpri-los, se o coração no dia seguinte pode amanhecer gostando de outro?

Genoveva? Ela tem a sorte de ser traçada por Machado de Assis, que, por gosto próprio e raro em sua obra, nos delicia com essa caboclinha de olhos atrevidos e corpo saliente, no esplendor de seus vinte anos, toda solta e cheia de desenvoltura.

Machado prefere Genoveva na Gamboa, bairro popular do final do século XIX. Por lá o samba gestava-se, misturado com os candomblés das “tias baianas” e com as crenças católicas; enquanto pela rua do Ouvidor as cariocas desfilavam, imitando as francesinhas – acalentando o sonho dos novos brasileiros, assentados na Corte imperial – que, por uma espécie de galhofa histórica, aportaram no Brasil.

O Rio de Janeiro desde 1808 é destaque na cena nacional. Primeiro, como sede da Corte, depois como capital do Império e da República, cujos ventos já sibilavam no ouvido de Machado – “saudades do tempo que se perde” –, anunciando as futuras mudanças e a vocação que a cidade teria para a joie de vivre, conforme expressão da época (Aguiar, 2008, p. 148).

Entre 1872 e 1890 o Rio quase dobrou de população; era a maior cidade do país, com 522 mil habitantes vindos de várias partes do Brasil. As tias baianas, que traziam o samba e o candomblé, se aboletaram lá pelas bandas da Gamboa, onde o samba nasceu e onde morava Genoveva.

Abaixo do Rio vinham as cidades de São Paulo e Salvador, cada uma com pouco mais de 200 mil habitantes (Araújo, 1995, p. 30). A cidade se movimentava, atraindo investimentos econômicos, beneficiando-se de serviços essenciais e se deixando tomar por um “frisson”: festas, concertos, reuniões literárias, saraus, concertos líricos, debates gerais, bailes. O Rio de Janeiro exalava um brilho de fascinação. Machado se deixa inebriar…

Mudanças no traço urbano suscitavam novos desejos. A cidade, vocacionada para o prazer, convidava a todos para nela passear. A atração pelo mundo da rua, a busca pelo prazer, o gosto por bater perna na rua, conforme uma expressão antiga, vão marcando o estilo único e malemolente do Rio de Janeiro. E Genoveva, no meio d’Isso…

Esse jeito de viver, desfrutando a vida, mapeia a cidade e marca um estilo. As elites adotam as formas burguesas de usufruir das atrações urbanas – vão aos teatros, aos concertos líricos. Machado se apaixona por cantoras líricas e atrizes do teatro, acompanhando a moda daqueles tempos em que o amor romântico vai se imiscuindo pelas brechas dos anseios, trazido por ventos europeus (Aguiar, 2008, p. 145).

Enquanto isso…, lá pela Gamboa, banhada pelo mar – que aliás se estendia até a atual Igreja de Santa Luzia no Centro do Rio –, outras formas de diversões baratas e populares surgiam, produzindo uma atmosfera marcada pelo “culto do prazer e da alegria” (Araújo, 1995, p. 25), traços constitutivos da alma carioca, conforme a historiadora Rosa Maria de Barbosa Araújo.

Machado se dá o luxo de colocar Genoveva nas cercanias da Gamboa, morando com Dona Inácia, dado cuja inclusão indica o lume social de sua personagem. Genoveva era uma caboclinha popular, fora do eixo que constituía as famílias tradicionais do século XIX do Brasil ainda imperial, nos tempos em que as mulheres ganham ou conquistam, não sei bem, a permissão para sair de casa e transitar pelas ruas.

O luxo de Machado é poder traçar Genoveva, caboclinha saliente, solta de espírito. É Genoveva que lhe dá a chance de flanar pelos recantos mais pobres da cidade, ameaçados pelos capoeiras, assaltantes da época. Estimava-se que “em 1890, mais de 100 mil pessoas não tinham ocupações definidas, sustentavam-se prestando serviços irregulares ou viviam na fronteira da legalidade, como ocorria com prostitutas, malandros, ladrões, desertores, ciganos, ambulantes e jogadores” (Araújo, 1995, p. 31).

É Genoveva que nos aproxima dos recantos mais permissivos da cidade. Por lá, podia-se dançar, cantar e beber nas ruas e arriscar um samba, antes de a polícia chegar e acabar com a patuscada. Em matéria de liberdade, Isso não era pouca coisa afinal, estamos num tempo em que sorrir não era “apropriado nos retratos da época” (Aguiar, 2008, p. 184).

Genoveva estaria assim, então, “mais para Manuel Antônio de Almeida, com Memórias de um sargento de milícias, do que para Machado de Assis” (Aguiar, 2008, p. 147). Sua graça vem do humor popular que enche as praças públicas, que desde Rabelais ganhou importância e notoriedade? Humor que inclui o riso solto e os humores do baixo ventre? Uma digestão que não inclui uma degradação, uma oposição entre o alto e o baixo ventre? É daí que vem a permissão para a sua sinceridade inequívoca? Afinal, quem é que manda no coração? Gonçalves Dias que o diga!

Quem era Genoveva?

Ai, ai… Genoveva. É incrível como esta personagem me sugere interjeições… E, por mais que pareça estranho, associações com filósofos de escrita “rude e complicada” (Kant, 1993, p. 9). É assim que imagino como seria um encontro de Genoveva com Kant: o homem da hora certa.

É claro que o texto que escolhi – Observações sobre o sentimento do belo e sublime (Kant, 2000) – é aquele em que o filósofo se solta numa linguagem literária na qual, segundo ele, está mais numa posição de observador do que de filósofo.

Genoveva é prova material da teoria do filósofo quando ele diz que: “[…] é sobretudo no caráter espiritual desse sexo que residem traços próprios a ele, que o distinguem claramente do nosso” (Kant, 2000, p. 47). De onde vem o estilo espirituoso de Genoveva?

As fontes são diversas. Uma, é claro, vem da sorte de Genoveva ser cria de Machado de Assis e circular pela Gamboa nesses tempos em que o Rio dança o lundu, a polca e a mazurca, além de ensaiar os primeiros passos do samba, causando espanto por suas belezas naturais e por sua “maneira descontraída e irreverente” (Martins, 1988, p. 17), como exclamou o grande dramaturgo Arthur Azevedo em 1873, quando ao Rio chegou, fugindo da tacanhice do Maranhão, que não suportava suas sátiras chulas. Genoveva é cria dessa irreverência?

Genoveva fazia parte daquele quinhão de mulheres que não eram casadas. Podia assim obedecer fielmente aos desmandos de seu fogoso coração? Também não era uma prostituta. Ela pertence àquele grupo de mulheres cujas uniões eram livres, fossem pelo amasiamento ou pelas relações sexuais eventuais. O concubinato sempre fez parte dos costumes brasileiros.

Sentada em sua janela, despreocupada, está Genoveva a coser um corpete azul – que liberdade! – quando chega Deolindo Venta-Grande, cheio de intenções assassinas; afinal, Genoveva? Esta? Já morava com outro. A partir daí Machado brilha e discute com Kant sobre sua personagem, cujo caráter espiritual nos deixa numa situação difícil, a de encontrar palavras que deem nome a tal licenciosidade.

A caboclinha traçada por Machado é dona de maneiras, digamos assim, naturais, simples, como diz Machado: próxima da natureza? Ou melhor perguntando, Genoveva fala de um lugar que lhe confere uma sinceridade inequívoca, própria daqueles que se sentem livres das amarras sociais? Sim, mas Genoveva, digamos assim, é má? Ela não tem culpa?

A moral das mulheres

Por incrível que pareça, Kant acerta na mosca em relação às mulheres. Para elas, a razão, só se for bela. “Bela mais que Bela, como era mesmo o nome dela?” (Gullar, 1983, p. 298). Este é o ponto de referência do filósofo: “A mulher possui forte sentimento inato por tudo o que é belo, gracioso e ornado, se compraz em se ornamentar. Ama o gracejo e pode se entreter com futilidades, conquanto sejam alegres e divertidas. Prefere o belo ao útil. E, com prazer, economiza o que sobra das despesas domésticas, a fim de despendê-lo em brilho e enfeite” (Kant, 2000, p. 48).

Elas, segundo Kant, só querem fazer o que melhor lhes apraz, não parecendo ter aptidão para com as obrigações: “Nada de deveres, necessidades ou obrigações; a mulher é intolerante com todo comando e obrigação inoportuna” (Kant, 2000, p. 52). Se dependesse delas, Freud diz que não haveria ciência, e Kant, no ensaio já aqui referido, coloca que: “Ela evitará o mal não por ser injusto, mas por ser repulsivo; ações virtuosas significam para ela as que são moralmente belas” (Kant, 2000, p. 52). Elas então não seriam nobres? Ou seja, se a moralidade é caso raro entre homens e mulheres, elas a vivem de uma maneira peculiar.

Segundo Monique David Ménard, os homens são “constituídos pela confrontação da máxima de seus atos com um imperativo incondicionado” (Ménard, 1998, p. 16) regido por um supereu que exige uma renúncia aos prazeres na busca da correspondência de ideais. Tais preceitos severos não levam em conta as dificuldades para o cumprimento de tais exigências, jogando o sujeito numa relação sadomasoquista consigo mesmo. Essa construção “tem fundamento numa estrutura de desejo masculino” que para ser esclarecida precisa levar em conta “a substituibilidade dos objetos das pulsões sexuais […] nos homens e nas mulheres” (idem, p. 17). Segundo ela: “Não se muda de objeto da mesma maneira quando se é mulher, identificado a uma mulher, e quando se é um homem, identificado a um homem” (ibid.).

Para Freud, o objeto da pulsão é o que mais pode variar na busca da satisfação: qualquer coisa serve. Lacan “substitui a ideia de que o objeto da pulsão pode mudar tão frequentemente quanto se queira” pela ideia de que o objeto não tem nenhuma importância, chegando ao “modelo perverso de realização pulsional” de Kant com Sade (Ménard, 1998, p. 18).

Para Monique, se há uma multiplicidade de funções do objeto, a mesma variabilidade pode ocorrer nos seus modos de substituição. Isso vale para homens e mulheres; no entanto, para estas últimas, haveria um modo de substituição que teria como consequência uma “outra incidência de culpabilidade”, uma tentativa de “construção subjetiva”, cujo efeito mais imediato seria o de “limitar o sentimento bruto da desgraça” (Ménard, 1998, p. 20). As mulheres, ou os identificados a ela, teriam assim uma “culpabilidade mais negociável” em que o “erotismo ou o pulsional” se faz de borda, constituindo um limite “à pulsão de morte, ao repetir alguma coisa que a desloca” (ibid.).

É comum escutarmos de nossas analisandas sonhos em que situações difíceis sofrem um deslocamento, uma substituição, sendo possível extrair daí alguma satisfação: “Eu sonhei que estava presa. Era horrível. De repente, pensei: pelo menos assim eu emagreço uns quilos”. Segundo Monique “esta substituição de objeto torna possível uma culpabilidade secundária e erotizada” (Ménard, 1998, p. 6). Não se trata então de ignorar a culpa, mas de construir uma outra “incidência de culpabilidade”? Ou melhor, não que as mulheres não sofram de Lei, talvez, apenas elas, “às vezes”, dela não padeçam. Trata-se de uma questão econômica? “Nem tanto”?

E Genoveva?

Voltemos a Genoveva… Ela levanta os olhos de sua costura e dá com Deolindo. Convida-o a entrar com uma franqueza de espantar. Deolindo até pensa… Será que? Mas… o entardecer era só de surpresas para ele.

Ele diz: “sei tudo”. Ela responde: “disseram a verdade”. Convida-o a entrar e com um olhar faz parar o seu ímpeto de, no mínimo, estrangulá-la: aquele “pedacinho de gente”. Genoveva lhe responde de um tal jeito que Machado não sabe bem definir: “[…] uma mescla de candura e cinismo, de insolência e simplicidade […]”. Na busca de palavras, Machado desiste do cinismo e da insolência, ficando com a candura e a simplicidade (Assis, 2007, p. 292).

O certo é que a partir daí Machado se esmera em colocar na boca e nos gestos de Genoveva aquilo que uma mulher mais bem sabe demonstrar: uma franqueza inequívoca modulada por um tom de verdade que lhe assegura de algo que não vem da moral, mas sim do sentir. Genoveva não se defendia de nada, afinal Nossa Senhora que estava em cima da cômoda era testemunha de seu sofrimento por Deolindo, mas… o tempo passara, e seu coração mudara: quem é que manda nos desditos do coração?

É aí que Machado se encontra com Kant, confirmando a tese do célebre filólebre fil encontra com Kant, confirmando a tese do cde algo que com certeza na mulher melhor sabe fazer: uma franqueza inequsofo: “Parece difícil acreditar que o belo sexo seja capaz de princípios, e, com isso, espero não ofendê-lo, pois também são muito raros no sexo masculino” (Kant, 2000, p. 52). Genoveva não tinha princípios?

A sua sinceridade inequívoca era dada por estar fora do imperativo categórico da moral? Era desse lugar que extraía sua graça de caboclinha saliente e popular das cercanias da Gamboa no Rio de Janeiro do século XIX? Ou diante do sofrimento da longa ausência de Deolindo em que “parecia que iria lhe dar uma coisa” (Assis, 2007, p. 290) o seu coração, em que ela não mandava, negociou uma outra incidência de culpa? Nem tanto? Afinal, como ela mesma diz: “Quando jurei era verdade. Tanto era verdade que eu queria fugir com você para o sertão. Só Deus sabe se era verdade! Mas… vieram outras coisas…” (Assis, 2007, p. 292).

Na verdade de Genoveva cabe um “mas, contudo, entretanto”? Trata-se de uma verdade negociável? É por isso mesmo que dona Almerinda, lá do povoado de Quatro Bocas no Maranhão, diz que a vantagem do homem é que ele pensa mais antes de falar e a palavra dele vai e não volta, mas a mulher, não, a língua não faz fadiga dentro da boca dela e aí, bem na horinha dela jurar, ela escorrega…


Notas e Referências:

AGUIAR, Luiz Antonio. Almanaque Machado de Assis. Rio de Janeiro: Record, São Paulo, 2008.

ARAÚJO, Rosa Maria Barboza. A vocação do prazer. A cidade e a família no Rio de Janeiro republicano. Rio de Janeiro: Rocco, 1995.

ASSIS, Joaquim Maria Machado de. A noite do Almirante. In: 50 contos de Machado de Assis (p. 289-295). Seleção de John Gledson. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

GULLAR, Ferreira. Poema sujo. In: Toda poesia. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1983. Campinas: Papirus, 2000.

KANT, Immanuel. Observações sobre o belo e o sublime. Ensaio sobre as doenças mentais. Tradução de Vinícius Figueiredo. Campinas: Papirus, 2000.

MARTINS, Antonio. Arthur Azevedo: a palavra e o riso. Rio de Janeiro: UFRJ/Perspectiva, 1988.

MÉNARD, Monique David. As construções do universal. Tradução de Celso Pereira de Almeida. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 1998.

VI Ciranda de Psicanálise e Arte promovida pela Escola Lacaniana de Psicanálise do RJ na PUC. Rio de Janeiro, setembro de 2008.


Elisabeth Bittencourt.
Elisabeth Bittencourt é Psicanalista e Escritora. Membro da Escola Lacaniana de Psicanálise do Rio de Janeiro. Membro do Núcleo de Direito e Psicanálise do Programa de Pós Graduação em Direito da Universidade Federal do Paraná – UFPR.
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