Fidel, Moro, Lula, Bolsonaro: a ideologia e a legitimação cega de ídolos...

Fidel, Moro, Lula, Bolsonaro: a ideologia e a legitimação cega de ídolos – Por Bruno Torrano

Por Bruno Torrano – 30/11/2016

Embora não fosse homem de ciência, Nelson Rodrigues era um gênio. Sua afirmação de que não existe nada mais cretino ou cretinizante do que a paixão política – segundo ele, única paixão sem grandeza e capaz de nos imbecilizar – encobre verdades que, a partir de outras formulações mais técnicas, têm sido cuidadosamente debatidas pela comunidade científica mundial.

Em estudo publicado em 2014 no jornal da American Psychological Association, Troy Campbell e Aaron Kay[1] sugeriram que, muitas vezes, o efeito da ideologia não afeta o reconhecimento da existência, em si, de um grave problema, e sim a aceitação das soluções necessárias ou mais racionais à luz das evidências empíricas. Essa aversão ou ceticismo, que foi batizada de solution aversion pelos autores, é motivada pela ameaça externa que tais propostas significam às crenças mais arraigadas do sujeito. Pessoas das mais diversas posições políticas podem, por exemplo, consentir acerca da crise fiscal e financeira pela qual passa o Estado brasileiro; mas haverá aquelas que, como mecanismo psicológico de defesa, estarão dispostas a continuar no mesmo erro estratégico-político de anos e mais anos de desequilíbrio das contas públicas, desde que isso seja confortável às suas convicções pessoais acerca de modelos de Estado, projetos partidários ou grau adequado de intervenção estatal na economia.

A afirmação de Nelson Rodrigues, entretanto, não parece limitar-se a casos de planejamento compartilhado nos quais as discordâncias das pessoas resumem-se a “como” solucionar algum problema, e não à sua existência propriamente dita. Há algo ainda mais profundo e sombrio. Nelson desnuda o poder esquizofrênico da ideologia política. Em diversos graus, a cegueira ideológica controla e brinca com nossas emoções primitivas e nossa capacidade cognitiva. Em casos mais patológicos, o mero contato com a contrariedade gera na pessoa um tipo de efeito estímulo-resposta muito parecido àquele estudado por Ivan Pavlov em cães famintos que veem um pedaço de carne: tal como uma besta selvagem, o sujeito automaticamente saliva de raiva, abandona a lógica e os fatos, distorce argumentos em contrário, xinga seus adversários ideológicos e, por vezes, quando possível, parte para violência física. Eu sugiro que o leitor lembre-se disso da próxima vez que vir os “debates” sobre política no Facebook.

Ideologias, como ideias que nós não sabemos que sabemos (Zizek), podem levar-nos tanto a negar fatos históricos em favor de narrativas fundadas em mitos, preconceitos e medos socialmente estruturados quanto resultar na elevação de líderes ou figuras públicas à condição de ídolos que são admirados por qualidades abstratas e quase místicas. Neste último caso, o pedestal ideológico, em automático, realiza uma cisão analítica entre as qualidades pessoais do ídolo (carisma, retórica, liderança, humanismo, honestidade, ideal, etc.), os meios por ele empregados para realizar os ideais propostos, e os resultados ideais ou efetivamente alcançados, de modo a negar, minimizar ou disfarçar eventuais desvios reprováveis nos “meios” caso a combinação entre personalidade e resultados seja considerada positiva, instigante ou desejável. Daí não se estranhar – embora devamos desaprovar – pessoas que sabem do histórico sangrento de algum ídolo da moda, mas ainda assim vestem camisas ou grudam quadros na parede em sua homenagem, sob o argumento simplório de tratar-se de um grande modelo de líder carismático e um grande incentivo ao espírito crítico.

Como se vê, a cegueira ideológica não raro conduz a raciocínios radicalmente consequencialistas que, fiéis à recomendação maquiavélica, pretendem-se legitimadores de atos imorais praticados no trajeto estratégico a partir de considerações sobre o estado de coisas que se almeja no futuro ou que já se alcançou no presente. Na estrutura linguística dos argumentos dessa natureza, podemos visualizar o uso de uma forma independente de conteúdo. Geralmente, emprega-se a conjunção adversativa “mas”, ou equivalentes, com a missão sintática de possibilitar a travessia da ponte que liga as imoralidades dos meios à justificação dos agradáveis resultados. Aqui, não interessa se você é de direita ou de esquerda: podemos apontar graus diversos de gravidade dos atos imorais em si, mas o poder alucinógeno da ideologia não escolhe em que tradição política específica produzirá seus efeitos. Inerente ao raciocínio está a instrumentalização de vidas humanas, o que significa admitir a descartabilidade dos direitos (à vida, à liberdade de ir e vir, à privacidade, à liberdade de expressão, à participação política, etc) de alguns homens concretos em favor do bem-estar de outros. “Sérgio Moro pode até ter decretado prisões preventivas como moeda de troca para delações premiadas, mas está passando o Brasil a limpo e colocando gente do andar de cima na prisão”, diria o fã do Juiz e da “República de Curitiba”; “Fidel pode até ter fuzilado dissidentes políticos e perseguido minorias, mas pediu desculpas e construiu um país em que, ao contrário dos ambientes capitalistas, concede-se efetivamente à população saúde e educação”, diria o esquerdista; “Bolsonaro até pode ser homofóbico e flertar com torturadores da ditadura militar, mas seria o único presidente a sepultar a ameaça comunista do Foro de São Paulo e do globalismo”, diria o direitista; “Lula pode até ter chefiado uma organização criminosa que pretendia perpetuar-se no Poder mediante compra do Legislativo, mas tirou milhões de pessoas da miséria”, diria o petista. Quem nunca leu ou ouviu frases como essas?

O poder esquizofrênico da ideologia era, sem dúvida, o fenômeno a que Ortega y Gasset queria referir-se quando, no prefácio para franceses de seu clássico A Rebelião das Massas, arrematou: “Ser de esquerda é, como ser de direita, uma das infinitas maneiras que o homem pode escolher para ser um imbecil: ambas, em efeito, são formas da hemiplegia moral”. Não se trata, obviamente, de afirmar a viabilidade ou desejabilidade da neutralidade política ou ética, e sim de alertar, como fez o imortal Nelson Rodrigues, para os efeitos imbecilizantes que são gerados pela adesão incondicional a certas narrativas ou sentimentos de grupo. O ideal é esforçar-se por fugir do pensamento de manada e colocar a própria cabeça para funcionar. Mas isso só é possível quando compreendemos que todos os nossos potenciais ídolos são seres humanos limitados e imperfeitos como nós próprios; que nossas crenças mais profundas podem não passar de um lamentável conjunto de erros acumulados; e que mudar de opinião é necessário e faz bem mesmo quando machuca a vaidade e põe em cheque o juízo sobre nossa própria inteligência.


Notas e Referências:

[1] Cf. http://psycnet.apa.org/index.cfm?fa=buy.optionToBuy&id=2014-44347-002


Bruno Torrano.
Bruno Torrano é Mestre em Filosofia e Teoria do Estado, Pós-graduado em Direito Penal, Criminologia e Política Criminal, Pós-graduando em Direito Empresarial, Assessor de Ministro no Superior Tribunal de Justiça. Autor do livro “Democracia e Respeito à Lei: Entre Positivismo Jurídico e Pós-Positivismo”.
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