Falo – Por Fernanda Martins

Falo – Por Fernanda Martins

Por Fernanda Martins – 14/01/2017

Não, eu não quero me acalmar
Eu não preciso de um tempo
Eu na verdade sei que não adianta esse lamento
Você não vai se apurar
Não importa quanto tempo passe
Meu sexo sempre é um impasse

(Carne Doce – Falo)

Há certo tempo insisto que diante dos marcos institucionais em que o direito é forjado – machista, classista, racista -, abrem-se poucas possibilidades de fissurar as estruturas patriarcais e de se construir uma sociedade radicalmente mais plural, no sentido de respeito às diferenças e na desconstrução de papéis através da sua ordem. No entanto, e por óbvio, a luta travada no meio jurídico e no processo legislativo não pode ser deslegitimada e tão pouco desconsiderada, mas é possível perceber que as transformações nos campos feministas se materializam com maior intensidade nas batalhas investidas paralelamente. Naquelas em que mulheres e homens resistem nas trincheiras do cotidiano para além das expectativas estatais.

As relações diárias de sujeitos que se propõem em resistir por uma sociedade mais livre – em que ´ser livre é viver sem medo´ de si e do mundo que nos cerca e representificar o passado, reconhecendo em suas próprias marcas que a vida só ocorre ao se lutar também por todas as vidas[1] – põem-se como força motriz no diálogo entre aquilo que se aprende com as teorias feministas, com o movimento negro, com as teorias queer, com as questões indígenas etc.. Neste local privilegiado, o papel da escuta é central, sobretudo das narrativas cotidianas de opressão, aquilo que de fato nos marca recorrentemente, práticas que ferem, matam, moldam e são moldadas pela cultura dominante e violenta do patriarcado.

Nunca é demais insistir que a potência está na fala (e não no falo), na escuta, no diálogo e tenho me comprometido em ouvir as mais diversas vozes que reverberam a luta e apontam as fraturas do sistema. Nesse sentido, para além das teóricas feministas, compreender as violências simbólicas e materiais que coexistem em tantos cotidianos distintos da sociedade brasileira passa também por se abrir ao que mulheres entoam como denúncia d/nas mais diversas realidades.

E foi assim que soube, através das vozes ensurdecedoras de Mc Carol e Karol Conka, que aos cinco anos elas já entendiam “que mulher apanha se não fizer comida” e que mulher obediente é aquela sem voz, mas que a pulsão sempre esteve presente e que quando crescessem elas seriam diferentes. Elas cresceram e hoje resistem, existem, objetam e afirmam que o silêncio não funciona, que a revolta vem à tona, pois a justiça não funciona! Tentaram a elas ensinar que eram insuficientes, mas discordaram, porque para ser ouvida o grito tem que ser potente! Ser mulher independente é não aceitar a opressão, é dizer para quem quiser ouvir “Abaixa sua voz, abaixa sua mão”.[2]

E com a Carne Doce do Goiás entendi que a voz emudecida não é só da mulher negra da periferia, mas que o timbre feminino pode ser também cansativo e silenciado naquela música popular. Talvez por isso que naqueles dias, que tanto gostam de atribuir a todos os nossos dias, alimentamos a fantasia de que ao falar se fará justiça, e que se falamos é me desculpa, com licença e obrigada. Mas aproveitamos essa hemorragia, para o luxo da verborragia ao dizer que nos mais diversos momentos não basta ser prática e explicar o óbvio, (por)que a condescendência é o fingimento de se tratar a mulher como igual.[3]

Mas a mulher não é igual, porque se a mulher desce quente e fervendo no baile da favela é ela que vai ser abusada. É a menor que engravida e que quem sustenta as 5,5 milhões de crianças sem registro paterno no Brasil é ela e a mãe dela. Sabemos que todos nós temos muito amor para dar e se quiser ir quente ou fervendo pouco importa, o que se exige é que se respeite o seu par, pois um dia a chapa que o homem ferveu pode ser a mãe dos filhos do destino que ­escolheu.[4]

O destino que se escolhe pode ser também aquele que em Tempo das mulher fruta, se vem menina veneno. É ser negra sensei e dizer Chega! É ser voz das nega que integra a resistência[5], a escolha e a luta de Drik Barbosa é por aqualtune, carolina(s)
dandara, xica da silva, nina, elsa, dona celestina, zeferina, Frida e dona brasilina.[6]

Como destino da mulher destemida é não temer as prisões e o medo da opressão. É a fala como potência, que alcança representação sem dimensões, que dialoga com sua própria realidade através da liberdade ao dizer para menina que ela pode ser livre também e dizer que é possível dizer ao saber que é século XXI, mas que tentam nos limitar com novas leis, distorcendo tudo que sei.[7]

Dos cantos do Brasil, os cantos de tantos Brasis, é a voz das mulheres que não precisam ser Queen Beyonce ou Diva Madonna para que cantem resistências, que ultrapassam os muros cerrados e cercados da lei que não lhes escuta e não lhes diz como voz de luta. É o sexo como impasse sempre presente, é marca da diferença em que o tom deve ser soado como aquele que não tem passe, é o que passa em seu próprio ritmo e ecoa em sua própria voz.


Notas e Referências: 

[1] http://emporiododireito.com.br/ladrilhos-do-avesso-historias-de-ontem-e-hoje

[2] Mc Carol e Karol Conka. 100% feminista. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=W05v0B59K5s

[3] Carne Doce. Falo. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=HE0SI04ylsE

[4] Mariana Nolasco. Baile de Favela (Resposta). Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=LL8x0ewyH_k

[5] Emidica feet Drik Barbosa, Amiri, Rico Dalasam, Muzzik e Raphão Alaafin. Mandume. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=mC_vrzqYfQc

[6] Mc Carol e Karol Conka. 100% feminista. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=W05v0B59K5s

[7] Mc Carol e Karol Conka. 100% feminista. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=W05v0B59K5s


Fernanda Martins.
Fernanda Martins é Mestre em Teoria, Filosofia e História do Direito pelo Programa de Pós-graduação em Direito da Universidade Federal de Santa Catarina. Professora substituta na Universidade Federal de Santa Catarina e professora na Universidade do Vale do Itajaí.
E-mail: fernanda.ma@gmail.com
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Imagem Ilustrativa do Post: One’s suffering disappears when one lets oneself go, when one yields – even to sadness /Antione de Saint-Exupery // Foto de: Sheena876 // Sem alterações

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