Educação Proibida e linhas de fuga abolicionistas – Por Guilherme Moreira Pires

Educação Proibida e linhas de fuga abolicionistas – Por Guilherme Moreira Pires

Por Guilherme Moreira Pires – 17/03/2017

RESUMO: O presente artigo se trata de uma reflexão a partir do documentário “Educación Prohibida” (que vocês encontrarão disponível no Youtube, com legendas em português, ou mesmo dublagem), recobrando a questão da inventiva e potente educação libertária, contemporaneamente tensionada por abolicionistas libertários interessados na dissolução (no presente!) de uma educação para a obediência, atrelada aos regimes de castigos e recompensas: formatação adestradora crucial para se entender a atualidade dos controles do século XXI e suas múltiplas ressonâncias e achatamentos, sobretudo valorizando os efeitos nefastos dessa política encarceradora na vida de crianças, impedindo-lhes de acessarem suas sublimes e inventivas forças vitais, recursos e imaginação. Desconectadas de suas potencialidades, para adequarem-se às réguas de toda sorte, dos condutores de consciências e administradores de suas vidas, contemplam a permuta de suas liberdades pela obediência às autoridades, assim anunciando a morte das liberdades. Após inúmeros anos massacrantes, muitos reconhecem a importância desse processo. Nesse ponto, já se tornaram os produtos finais desses achatamentos, dispostos a transmitirem as novas velhas violências adiante, aos seus filhos e/ou demais conduzidos, alimentando o insano mundo das autoridades e amabilidades programadas.

1. INTRODUÇÃO: EDUCAÇÃO LIBERTÁRIA E UM CONVITE

Dedicado a todas as crianças e jovens que anseiam crescer na liberdade, o documentário é também excelente para adultos – não há restrições sobre quem possa se beneficiar das provocações apresentadas.

Logo no início, é sublinhado que o referido documentário (“Educação Proibida” na tradução em português) se mostra um produto de aprendizagens contínuas, e que não deve, sob nenhuma circunstância, ser entendido como produção conclusiva, final e definitiva. As provocações suscitadas tampouco nutrem a pretensão de palavra final.

Para além dos controles, castrações e imposições das autoridades, o documentário apresenta um sincero convite a pensar: um amplamente generoso convite ao desencarceramento da imaginação, ao liberar e reinventar, despertando o potencial do sujeito criativo como algo que escapa às múltiplas contenções, traduções, codificações e massacres das subjetividades e liberdades.

No caso das crianças, especialmente “não encarcerar” e não limitar seus pensamentos e movimentações, suas experimentações e visões, afinal, não é necessário um grande esforço para liberar a criatividade das crianças: elas já são criativas e geniais. Em verdade, se trata menos de despertar, e mais de não anular tais possibilidades, que já se manifestam facilmente na ausência de castrações e achatamentos atreladas às produções e constelações repressivas, autoridades e suas hierarquias, artífices de uma educação para a obediência, para a própria autopreservação do jogo instituído, um jogo em prol da verticalidade e governo da vida (perpetrado por condutores de consciências e vozes do “bom controle”, inseridos na legitimação da arte de governar).

Trata-se de não impedir que acessem suas já inventivas forças vitais e curiosidades fantásticas. Não é preciso adestrar uma criança para que ela aprenda a questionar o porquê de algo: acessando suas curiosidades e inventividades, elas já o fazem espontaneamente.

Aprendem mais que os adultos, frequentemente se mostram mais criativas, com vidas ainda não capturadas, ainda não uniformizadas, e não armazenáveis nas linhas pontilhadas e réguas das expectativas projetadas pelas autoridades; as crianças transbordam e rasgam limites. Até cicatrizam mais rápido. São monstros do aprendizado, numa acepção guerreira e inventiva, com movimentações destoantes do imposto.

Os adultos e toda sorte de autoridades se preocupam muito em adestrá-los, se incomodam com suas potências do imprevisível, que escancaram todo o potencial perdido dos adultos.

Singularidades geniais, fadadas, se permanecerem nos fluxos e influxos administrados pelas autoridades, a se converterem em apenas mais corpos governados, gosmificados, desconectados de suas próprias potencialidades.      Não se deve anular e/ou proibir tal acesso, o que é básico na educação anarquista; trata-se de experimentar esse acesso e conexão ao próprio potencial, cujas autoridades incisivamente se empenham em obliterar.

O papel do adulto (se existe tal coisa), assim, mais do que se pretender como “professor da inventividade”, “criador da potência”, está em não podar as asas das crianças, não as cortar, recusando-se a massacrar suas criatividades, genialidades e subjetividades; não desqualificando e encarcerando sua imaginação e potência. Se trata menos de “como bem modelar” (uma questão mal colocada) e mais de se negar, e no limite abolir tais fascínios que nos parasitam, sobremaneira ligados à mística dos condutores de consciências intrincada à mente dos governados, sobretudo fascinados com a proposta do “bom governo”.

Nesse sentido, se você é pai, mãe, irmão, irmã, tio(a), da família, ou amigo de uma criança, e não deseja podá-la, este filme pode lhe ser útil (não como cartilha, mas como ativador de complexidades). Talvez até para desbloquear acessos à própria inventividade, e repensar muito acerca de sua vida.

Quem sabe, nesse caso, seja possível refletir sobre suas transformações, e repensar, com olhares no passado (e raciocínios também no futuro), mas sempre interessado também no presente, no aqui e agora, caso contrário, se segue destruindo o presente baseado em projeções futuras (e/ou dores do passado), que, além de massacrarem e detonarem vidas no presente, podem não ter qualquer sentido no futuro; as projeções podem se mostrar equivocadas, ou não se amoldarem ao novo presente.

O certo é que o agora não deve ser massacrado por promessas vãs atreladas ao amanhã, eternizando culturas repressivas.

O convite está feito.

Um atrelado à abolição de constelações repressivas.

Com acessos abolicionistas…

Às inventividades e potencialidades perdidas.

Para além das respostas pré-programadas pelas autoridades.

Seus sistemas e cartilhas.

Um convite incendiário, contagiante e liberador.

Contra os governos da vida.

2. OS CONDUTORES DE CONSCIÊNCIAS: O MUNDO DAS AUTORIDADES NÃO SOBREVIVE SEM OBEDIÊNCIA E PRODUÇÃO DE ALMAS DESPEDAÇADAS

No aludido documentário, se expõe como a lógica brutalizante da educação para a obediência massacra a curiosidade e o aprendizado. As crianças são administradas (é dizer, governadas) por autoridades que lhes adestram e vigiam seus passos, celebrando a verticalidade; assim, muito pouco se aprende, e ademais, rapidamente se esquece o pouco aprendido: o que vale e importa passa a ser acessar tais aprendizados no momento da prova e seu respectivo sistema de notas, um acesso limitado, forjado para jogar o jogo dos castigos e recompensas, e depois evaporar e se perder, desaparecer.

Acerca desse pequeno e limitado aprendizado, de maior parte esquecida, o que frequentemente sobra são as marcas dos massacres que receberam as crianças, impressas no conteúdo naturalizado e correspondentes achatamentos.

Os sonhos e existências trituradas, esfareladas, as inventividades e potencialidades esmagadas, bloqueadas: as marcas e fendas dos abalos dificilmente desaparecem. O que se perde e desaparece, são precisamente essas inventividades e potencialidades extraordinárias, que cedem lugar a conteúdo repressivo. Razão de governo e razão de Estado necessitam de muros internos e almas despedaçadas, consumidores desesperados e imbecilizados.

O mundo das autoridades depende de tal produção. Recobrando Deleuze (2002), o tirano necessita de tal miséria política, ele precisa de almas despedaçadas, que por sua vez acreditam necessitar desses tiranos condutores de consciências. Há alguma dúvida de que as escolas perpetradoras dessa educação para a obediência, se filiam a uma produção de almas despedaçadas, entre amabilidades programadas?

Parece de clareza solar, desde uma perspectiva anarquista atenta à atualidade e versatilidade dos controles, bem como do conjunto fundamental associado às culturas repressivas, conjunto que abriga as escolas e universidades com papéis de destaque na conservação dos dejetos sedimentados, os quais as histórias dos pensamentos libertários tanto se empenharam em abolir (como continuam a fazê-lo, se reinventando sem sacrificar a liberdade em troca do “bom controle” e do “bom governo”, produções tão oxigenadas no senso comum democrático e suas convocações e recrutamentos acerca das participações nos fluxos de controles e governos, funcionais aos poderes estabelecidos e suas autoridades).

De certa forma, a educação está proibida, o que paira é a obediência.  Podemos chamá-la de uma educação para a obediência, mas o certo é que, mais importantes que os nomes, são as marcas e abalos desses regimes, dessa política. O tédio e aborrecimento nas (e das) escolas e colégios expostos no documentário, atrelados ao controle articulado pelas autoridades e perda de liberdade dos alunos, logo se transporta para outros âmbitos e fases da vida, multiplicando abalos.

A maior parte desses alunos será governada e obedecerá ordens em trabalhos com salários sobremaneira distantes dos que efetivamente se beneficiam de tudo isso (claro, isso quando conseguem um emprego, muitos nem conseguirão); então acessarão toda a obediência e desgosto que cultivaram em suas infâncias massacradas, continuamente necessárias para seguirem (sobre)vivendo nas linhas pontilhadas (caso contrário, existem, exemplificativamente, as prisões, essas partes atualmente indispensáveis ao conjunto das constelações repressivas, e a elas fortemente costuradas, inclusive nas escolas. Não por acaso, os que se empenham na abolição de tais produções, são constantemente repudiados pelos tributários desta ou daquela arte de governar e seus condutores de consciências representantes; a prisão como uma política encontra-se em toda parte, inclusive nas escolas).

A caricatura do estudante cansado e desolado, longe de ser rompida na fase adulta, alcança máxima degradação, encontrando direcionamentos no sentido de um aprofundamento dos achatamentos e violências submetidas e infligidas como tendência nessa educação para a obediência, fazendo, com frequência, que esses adultos até mesmo romantizem e retratem com felicidade o miserável e terrível período de suas vidas em que foram violentados nesse funeral das liberdades; não raro remontam esses adestramentos como oriundos de uma etapa importante e necessária de suas vidas, impondo às novas crianças que “esse é o caminho”, que “assim são as coisas”. Dificilmente se diz que esse também é o caminho da morte atrelada à rendição e submissão ao poder, obediência e encarceramento.

Os governos em sentido amplo são então irrigados com as lágrimas dos novos cordeirinhos e seus condutores, facilmente remodelados nos fluxos das amabilidades programadas, como bem observam Passetti (2003; 2008) e Augusto (2008; 2013). Gradativamente as crianças aprendem a amar as autoridades e suas produções. Quando adultos, até questionam esta ou aquela autoridade, mas cristalizam em si o princípio da autoridade, tão atrelada aos castigos e governos da vida. Nessa toada, o adulto buscará “boas constelações repressivas”, inclusive para “bem adestrar” os filhos no ritmo de suas produções (preferidas) do poder, fomentando uma nova sucessão de capturas legitimantes de culturas repressivas, na educação, marcadas pela obediência e submissão ao poder, pelo encarceramento da imaginação e inventividade.

Singularidades destroçadas com o peso das expectativas orbitando cada régua e padrão, cada castigo, cada humilhação, cada separação em vencedores e perdedores e(m) competições atreladas aos regimes de castigos e recompensas; cada violência instituída no cerne do princípio da autoridade e consequente sacrifício ao poder, demarcando uma política sacrificial legitimante de controles e autoridades, produtora de almas despedaçadas e existências únicas trituradas, apagadas na uniformização e formatação corretora da educação para a obediência.

3. AS BATALHAS DOS ÚNICOS: NA EDUCAÇÃO E NA VIDA, INEXISTEM CAMINHOS ÚNICOS, MAS SIM OS CAMINHOS DOS ÚNICOS (CONTRA A OBEDIÊNCIA)

O único é devorado pelo universal. O único é sacrificado em seu nome. O único é proibido. O único precisa ser obliterado nesse plano, nesse projeto repressivo. O único é também a prova de que as autoridades ainda terão trabalho e problemas pela frente, para adestrar essas potências sublimes e rebeldes, e assim manterem o princípio da autoridade como regente de vidas.

Os únicos são as crianças. São elas, as crianças, as mais potentes chamas anárquicas as quais as autoridades e condutores de toda sorte, tanto se empenham em normalizar: as potências do imprevisível, as anarquistas dos ventos e das tormentas libertárias, inventivos artífices-guerreiros do presente. As singularidades destoantes.

E infelizmente as aludidas autoridades e condutores de consciências, legitimantes da arte de governar, conseguem contemplar seus planos e devorar boa parte das potências dessas crianças, produzindo um exército de almas despedaçadas.

Mas há sempre o que escapa às codificações, formatações, normalizações e adestramentos. Feixes, átomos que despertam a atenção dessas autoridades, obcecadas por erradicar, fazer desaparecer sem rastros, as fissuras aos seus planos. Os adultos anarquistas são provas vívidas de que sempre há algo que escapa a essas codificações e formatações, que melancolicamente direcionam vidas ao peso do princípio da autoridade, sacrificando-as, juntamente com suas liberdades; são o vírus que as escolas e demais instituições não erradicaram.

Nesses estacionamentos-prisões delineadores de almas despedaçadas, com muros mentais cada vez mais altos e abrangentes, a prisão pode ser captada como a poderosa política que é, atrelada aos governos da vida, para muito além de prédios e muros: ela penetra e oblitera subjetividades, destroça e bloqueia potencialidades, reprograma e parasita sublimes acessos à inventividade.

A prisão como uma política nos atravessa e mata aos poucos, energizando vidas desoladas, despedaçadas, podadas de suas conexões e acessos interiores à experimentação de liberdades e próprio potencial. Produz carcaças que seguem respirando, naturalizando culturas repressivas e fascínio pelo poder. Produz adultos-zumbis.

As autoridades, administradores, dirigentes e condutores de consciências, justificam circularmente os danos, dores e sofrimentos atrelados a esse massacre das liberdades, sempre retornando à imprescindibilidade da palavra (e governo em sentido amplo) da autoridade, e em etapas: alimentando etapismos consoladores, forças capturadas, esperanças, sonhos tragados, desejos forjados, pré-fabricados, induzidos, instituídos, praticamente implantados; as autoridades e suas hierarquias sugerem que todo esse adestramento um dia será útil.

Útil e funcional, de fato. Ao mundo das autoridades e poderes estabelecidos, bem como novos candidatos ao trono, disputando redesenhos nas diagramações de poder. Funcional às culturas repressivas e governos da vida, em que operam a escolas, fábricas-prisões de cidadãos obedientes, amedrontados e temerosos ao poder, com imaginações para a liberdade estilhaçadas.

As potentes resistências, mesmo as das crianças mais brilhantes, tendem a perder essa guerra quase impossível, eis que enfrentam gigantes produções repressivas, erigidas e invocadas precisamente pelos que controlam o mundo, os adultos, seus fiéis e gosmificados artífices.

Uma tarefa árdua resistir aos sistemas e constelações repressivas que gradativamente nos atravessam e habitam, que nos parasitam, que nos devoram por dentro, e que, se não reagirmos, tornam-se nós mesmos.

Nesse acoplamento, não há mais distinção, que se perde, se dissipa, esmorece.

A maior parte das crianças é devorada pela educação para a obediência, perdendo aos poucos cada batalha diária, e desaparecendo enquanto singularidade fantástica e sublime, para tornar-se apenas mais uma carcaça formatada na multidão, sem força vital e imaginação para além do instituído.

As potências de outrora se convertem nos produtos finais desses achatamentos. Tornam-se os produtos e representantes finais dessas constelações repressivas, integrantes do ritmo de corpos governados ressoando ante universalidades e sistemas sedimentados, estruturados na tautologia do princípio da autoridade e suas reverberações (detonando com a curiosidade inventiva das crianças, para além desses dejetos sedimentados, num verdadeiro funeral das liberdades).

Nesse funeral, são melancolicamente absorvidas pelas crianças a linguagem dessas constelações repressivas e produções do poder, diametralmente opostas à linguagem libertária: absorção e bombardeamento em quantidades suficientes para despedaçar mesmo as mais brilhantes crianças e suas inteligências diversas e únicas (por vezes precisamente essas, caso tenham inteligências que destoem das inteligências esperadas; quer dizer, mesmo um aluno artista brilhante, com pouca aptidão para decorar, pode ser taxado de burro e reprovar na educação para a obediência e suas cartilhas, ou, ser aprovado, mas destroçado no processo. É preciso repetir o quão ótimo e funcional isso é aos governos da vida e culturas repressivas?).

Pior: resta também convencer aos governados que isso é péssimo para eles, mas nesse ponto, já é tarde. Já não compreendem a linguagem libertária (acessos bloqueados), apenas a dos controles naturalizados, a exemplo da linguagem-crime. Linhas de fuga abolicionistas serão muito difíceis, mas ainda assim os anarquistas não desistem, eles sabem que o controle não é absoluto. Pode ser quase, mas não é. Nesse “quase”, encontra-se a mortalidade do poder.

Não há o que se orgulhar com a educação para a obediência. Considerando o titânico peso do que nos rodeia e gradativamente atravessa, habita e parasita, (de)forma, se indaga no documentário que ambiente estamos oferecendo às crianças.

É preciso navegar mais, e indagar que mundo é esse em que estamos lhes lançando. O ambiente oferecido, nos remete a uma “oferta” forçada, uma imposição, uma falsa oferta. Uma prescrição racionalizada atrelada à ordem das autoridades, ordem que retira as forças vitais das individualidades para formar rebanhos adestrados, corpos dóceis com tempos de vida destinados a serem “bem administrados”, para que um dia se tornem igualmente “bons administradores” de vidas.

Tudo “com muito amor”, claro, devaneio-referência às amabilidades programadas, em que é preciso mostrar-se agradecido à “boa vontade” das autoridades. Por isso, o amor também é instrumentalizado, e também nos remete a armadilhas. Todo cuidado é pouco com “amor” e “autoridades” na mesma construção, o que o excelente documentário desafortunadamente não lanceia numa perspectiva crítica.

Em pesquisa nele mencionada, na Argentina, a quantidade de professores frustrados, que, assim como as crianças, não iriam às aulas se pudessem escolher (sem ressonâncias negativas), explicita que essas mesmas crianças que não gostam das escolas, tendem a ser administradas por autoridades frustradas, embrutecidas, que também não gostam.

Não se tornar uma dessas autoridades frustradas no futuro, eis um desafio quase que impronunciável pelos adultos, tamanho o desconforto em se enxergarem como parte fundamental do problema: como as criaturas de almas despedaças que se tornaram, o que não se pode compensar com um terno e um carro, dormindo cedo para trabalhar no dia seguinte em um ambiente repressivo, destinado a influir para pior no mundo.

Se recobra no documentário, na potência do aprendizado, um emergir que nasce da pergunta no caos, não de uma resposta numa ordem a ser engolida; a importância do erro, intolerável e mesmo castigado na educação para a obediência, nos recobra a importância, da sobremaneira distinta, educação libertária, que anuncia uma demolição abolicionista de toda simetria repressiva fantasiosa forjada, disposta sobre os corpos das crianças, e delas se esperando adequação e submissão ao fluxo de medidas e resposta pré-fabricadas, legitimantes de uma arte de governar (a exemplo do sistema penal) e suas respectivas programações do não-pensar; programações funcionais aos poderes estabelecidos e hierarquias constituídas.

Nas escolas, divisões em anos e categorias. Duas ou três formaturas. Em cada formatura simbólica, se promete que “agora tudo será diferente”. Para a maior parte, esse “agora” nunca chega: foram enganados pelas mentiras dos etapismos e utopias consoladoras, acompanhadas de todo o peso de suas hegemonias instituidoras do massacre de liberdades na produção de corpos governados, pressionados para “serem alguém na vida”.

Mas o que é ser alguém na vida? Ser uma autoridade? Para as autoridades, a resposta parece positiva. Apenas “mais do mesmo”, tornam-se muitos ao final. E, frustrados, antes de morrerem, ainda certificam-se de passar adiante para seus filhos, a herança dos massacres que receberam, e que até se convenceram a apreciar como “necessária” e “imprescindível”.

A educação autoritária, estruturada na obediência, vislumbra crianças incríveis como cascas vazias que nada sabem, fomentando o autoengano e, gradativamente, desconectando esses seres naturalmente inventivos de seus acessos e potências interiores.

Ao gradativamente terem bloqueados, ridicularizados e minados seus recursos e imaginação, inventividade e potencialidades, essas crianças bombardeadas e achatadas pela educação para a obediência, vão se tornando estranhos para si mesmos, não mais se reconhecendo e identificando suas potencialidades fantásticas. Se fecham para suas genialidades e se abrem aos projetos de mundos das autoridades.

Essa estranheza também é gradativamente naturalizada, até esmorecer, e tornar-se o próprio reconhecimento de si, já devidamente podado, castrado, uniformizado, normalizado. Existência então curvada ao peso do princípio da autoridade, condicionada ao medo e obediente às constelações repressivas das sociedades de controle e atualidades do século XXI, orbitando o mundo das autoridades e suas hierarquias, seus castigos e recompensas, suas ameaças e violências de toda sorte.

Condutores de consciências vibram e gozam com tamanho sucesso das produções repressivas: sem subjetividades trituradas pelo medo e palavra do poder, não há espaço para o tirano, para o governo da vida em sentido amplo.

Esses remodeladores de mundos, neles influindo para pior, para realidades mais gosmificadas e melancólicas, verticalizadas, trituram e martelam, forjam suas impressões e expectativas normalizantes, no ritmo e imagens de produções e projeções depressivas.

Destino maldito o de reiteradamente se curvar e obedecer religiosamente as autoridades, cada palavra do poder, gradativamente se desconectando dos sublimes acessos anárquicos à própria inventividade então aprisionada no interior, verdadeiramente abolicionista de culturas repressivas, sistemas, mecânicas e operacionalidades brutalizantes e colonizadoras, com seus sistemas de respostas pré-fabricadas, cartilhas e modelos, mais que limitadíssimos e reducionistas por excelência, insanamente destrutivos, inclusive de subjetividades, massacrando mundos, despedaçando almas, simplificando e bloqueando acessos e inventividades libertárias, linguagens libertárias.

Processo de destruição condutor dos produtos finais, precisamente essas almas despedaçadas e corpos sem vida, que então necessitam de líderes e autoridades, como aprenderam, na linguagem naturalizada, e própria demanda vociferada por seus corpos massacrados, que aprenderem a gozar com o controle e o poder, ainda que alvejando seus próprios corpos.

Corpos sem energias, desprovidos de acessos anárquicos, de inventividade e criatividade, potencialidades, coroam razão de governo e razão de Estado, coroam sistemas e suas autoridades, celebradas como ídolos. Perderam, ou melhor, arrancaram-lhes a percepção do múltiplo, do sublime, do intempestivo e imprevisível, do extraordinário, do destoante do que transborda limites e expectativas, do que destoa do “padrão” esperado e tolerado.

Essa dinâmica encarceradora e formatadora confisca das crianças o que possuem de mais belo e potente, transmutado noutros ingredientes funcionais e obedientes às constelações repressivas e poderes estabelecidos.

No documentário, se indaga se não estamos confundindo a diversidade das crianças, a multiplicidade de cada singularidade, com doenças que demandariam medicamentos. Mais do que uma confusão, trata-se de um reiterado processo repressivo atrelado à prisão como uma política, que conserva normalizações vinculando a extraordinária criatividade e energia das crianças a patologias e desvios puníveis e/ou tratáveis, abocanhando o que escapa aos padrões impostos que lhes são projetados com(o) expectativa de adequação, assim devorando resistências e forças destoantes, contribuindo para a imbecilização do grupo e governo de corpos.

O trituramento existencial das prisões não perde em nada para o das escolas, prisões mais sofisticadas, com discursos legitimantes tão vitoriosos quanto o das prisões (talvez muitíssimo mais). Ambas refletem a prisão como uma política, que não se inicia, e nem cessa nesses espaços seus horizontes terríveis.

Uma participante do aludido documentário destaca que o rótulo e a classificação lançados nas crianças, nutrem verdadeiramente o condão de cortar suas asas. Bloqueiam a inventividade e vontade de explorar o próprio potencial e prazer de viver.

Encarceram, desde uma perspectiva libertária, a sublime e fantástica arte de não ser governado, uma arte fundamental ligada à própria inventividade e respeito mútuo, ação direta, horizontalidade, potencialidades que alimentam a experimentação de liberdades no presente.

E, para não se matar a criatividade das crianças, é necessário deixá-las criar (caso contrário, gradativamente se bloqueia essa possibilidade), interagindo com a complexidade do mundo, e, obviamente, sua própria complexidade, única e singular, fantástica, que não deve ser perdida no coro do universal e dos sistemas repressivos que se autoproclamam imprescindíveis à boa condução das pessoas, adestrando e castigando, uniformizando.

Mas os adultos insistem em delas confiscar o que nutrem de melhor, bloqueando e impedindo que trilhem seus caminhos.

Não existem caminhos únicos, mas sim os caminhos dos únicos, e suas fantásticas associações e reverberações, valorizando a horizontalidade, atiçados pela liberdade e apoio mútuo. Navegar sem ser tragado, absorvido, abocanhado e devorado no universal: sem ser esfarelado e obliterado.

4. LEMBRETE MALDITO

O final do documentário desperta esperança nas convocações a participações, boas autoridades, introdução dos alunos nos fluxos de participações atreladas às tomadas de decisões. Trata-se da grande armadilha presente nesse fantástico documentário.

Uma armadilha inventada no redimensionamento da autoridade nas escolas, perpetrando uma espécie de conciliação e amenização de algumas críticas levantadas, o que na prática resulta num redesenho garantidor da conservação e aprimoramento dos controles no presente, redesenhando a autoridade, mas garantindo sua centralidade e imprescindibilidade, introduzindo os alunos nos fluxos de controle.

A estratégica da educação para a obediência frente à percepção e influência de seus críticos, foi a de mascarar essa constatação em suas reverberações, o que abrange mitigar a autoridade, democratizá-la, fracioná-la, redesenhando as equações e desenhos do poder, reconfigurando sua balança.

A autoridade foi assim inserida e diluída nos fluxos das convocações para ser compartilhada entre seus entusiasmados participantes, simulando horizontalidade, quando se trata de participação nos controles e governos da vida; assim se garantiu a centralidade da autoridade encapsulada, bem como sua até então imbatível hegemonia, defendida por microautoridades, produtos finais desses achatamentos, pequenos carcereiros e polícias: nós mesmos, representantes dessa bem sucedida resposta da educação para a obediência, na versatilidade dos controles.

Os modelos mais austeros e autoridades temíveis foram permutadas por constelações repressivas redimensionadas ao paladar de seus governados, para melhor enganá-los e devorá-los, fomentando controles, castigos, formatações, achatamentos, modulações e adestramentos lights, ativando menos resistências e desconfortos, capturando quase que completamente as potentes críticas lançadas sobre as escolas e suas dinâmicas e ressonâncias.

Eles foram engolidos e devorados. Vitória da versatilidade dos controles e da educação para a obediência.

Nesse ponto, os críticos cederam majoritariamente.

Resta pouquíssima resistência não capturada por redesenhos. Restam os únicos e suas imprevisíveis e singulares batalhas.

Não tenho fé nenhuma nas autoridades para a resolução dessa questão.

É preciso olhar menos para o que essas autoridades propõem como resposta, e mais para as lutas desses inventivos guerreiros. Suas batalhas carregam as maiores mensagens possíveis, que nenhum especialista ou autoridade conseguirá codificar ou traduzir.

A participação simbólica das tomadas de decisões de culturas repressivas não ameniza o peso do princípio da autoridade, apenas o redimensiona, tornando-o mais perigoso e sofisticado, atravessando e parasitando com uma versatilidade impressionante a produção de subjetividades, de alunos que naturalizam desde cedo o prazer de participar institucionalmente, e em todos os âmbitos, dos governos da vida em sentido amplo.

Adiante, apartando-se dessa armadilha, o documentário volta-se às correntes críticas sobre a desescolarização, reivindicando a importância da educação fora desses ambientes e conjuntos, considerando uma sociedade e educação sem escolas (Ivan Illich, por exemplo, influenciou vários criminólogos), recobrando uma premissa básica, a de que escolarização não é sinônimo de educação, bem como muitos dos argumentos refletidos e desenvolvidos até aqui.

Trata-se da possibilidade de energizar uma educação potencializada pelos acessos à própria inventividade e criatividade, considerando a diversidade e complexidade da vida, as potencialidades dos únicos, que, se não forem formatados e destroçados, permanecerão potentes e inventivos, acessando e construindo suas individualidades numa educação para a liberdade, aprofundando e descobrindo o que possuem (e são), bem como o que podem vir a ser. Escolhas libertárias para além da educação para a obediência e projeções das autoridades.

O documentário, nesse mote, ressoa até um abolir atrelado à escola, e a isso nenhum redesenho reformista sugerido se equipara; é imprescindível abolir os governos da vida e fomentar uma arte, não de governar, mas de não ser governado. Deixar morrer o princípio da autoridade e suas ressonâncias é também apostar na mortalidade do poder, produções, culturas e constelações repressivas, e não na morte de si.

Saúde!


Outros textos sugeridos abrangendo educação e o conteúdo tratado no presente artigo:

CORDEIRO, Patrícia; PIRES, Guilherme Moreira. A questão dos castigos e punições nas histórias dos pensamentos libertários. Empório do Direito, 2017. Disponível em:  <emporiododireito.com.br/a-questao-dos-castigos-e-punicoes-nas-historias-dos-pensamentos-libertarios/> ISSN 2446-7405.

CORDEIRO, Patrícia; PIRES, Guilherme Moreira. ‘O professor’ perante as instituições de ensino e a produção institucional da subjetividade. Empório do Direito, 2015. Disponível em: <http://emporiododireito.com.br/o-professor-perante-as-instituicoes-de-ensino-e-a-producao-institucional-da-subjetividade-por-patricia-cordeiro-e-guilherme-moreira-pires/> ISSN 2446-7405.

PIRES, Guilherme Moreira. Estado Moderno, Escolas e Universidades: conservação e aprimoramento da versatilidade dos controles no presente. Empório do Direito, 2016. Disponível em: <http://emporiododireito.com.br/estado-moderno-escolas-e-universidades/> ISSN 2446-7405.

PIRES, Guilherme Moreira. Senso comum democrático: ensaio abolicionista contra a pureza do poder (parte 2). Empório do Direito, 2016. Disponível em: <http://emporiododireito.com.br/senso-comum-democratico-ensaio-abolicionista-contra-a-pureza-do-poder-parte-2-por-guilherme-moreira-pires/> ISSN 2446-7405. 


Notas e Referências:

AUGUSTO, Acácio. Política e polícia: Cuidados, controles e penalizações de jovens. Rio de Janeiro: Lamparina Editora, 2013.

AUGUSTO, Acácio; PASSETTI, Edson.  Anarquismos & Educação. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2008.

DELEUZE, Gilles. ‘Vida de Espinosa‘ [Cap. 1] – in: “Espinosa: Filosofia Prática” – Tradução: Daniel Lins & Fabien Pascal Lins, 2002. Disponível em: <http://conexoesclinicas.com.br/wp-content/uploads/2015/12/deleuze-g-espinoza-filosofia-pratica.pdf>.

DOCUMENTÁRIO. Educación Prohibida. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=-1Y9OqSJKCc>.

ILLICH, Ivan. Sociedade sem escolas. Tradução de Lúcia Mathilde Endlich Orth. Petrópolis: Editora Vozes, 7º edição, 1985.

PASSETTI, Edson. Anarquismos e sociedade de controle. São Paulo: Cortez, 2003.


Guilherme Moreira Pires.
Guilherme Moreira Pires é advogado, doutorando em Direito Penal pela Universidad de Buenos Aires. Autor de livros em Brasil e Argentina. Cofundador do Instituto Capixaba de Criminologia e Estudos Penais (ICCEP).
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