Edgar Allan Poe: sombrio, genial, universal – Por Luiz Ferri de Barros

Edgar Allan Poe: sombrio, genial, universal – Por Luiz Ferri de Barros

Por Luiz Ferri de Barros – 25/04/2017

Desvendar crimes a partir da lógica dedutiva fez do detetive Auguste Dupin o precursor de Sherlock Holmes e do racionalista Edgar Allan Poe o pai do conto policial, antecedendo Conan Doyle. 

Primeiro autor americano a viver exclusivamente de seu trabalho como escritor e um dos primeiros a escrever contos, Poe influenciou a literatura universal, inspirando novos gêneros, como o conto policial e as histórias de ficção científica. 

Um dos escritores mais significativos do século 19, Edgard Allan Poe (1809 – 1849) é considerado o pai do conto policial. Também escreveu histórias macabras (de terror) e ficção científica. Romântico e racionalista, foi lírico como poeta, severo crítico literário, jornalista e editor – e profundamente infeliz em sua vida pessoal.

Digamos que alguém, por mero capricho, ou desconhecimento, quisesse minimizar a importância desse autor. Bastaria, neste caso, assinalar o nome de alguns de seus tradutores. Para o francês traduziu seus contos – “Histórias Extraordinárias” – Charles Baudelaire; para o português, Machado de Assis traduziu “O Corvo”, o mais famoso de seus poemas; e Fernando Pessoa, também, traduziu, com “sotaque” português, o mesmo poema e outros, como “Annabel Lee”, outra de suas obras primas.

Sobre ele, o inglês Arthur Conan Doyle, criador de Sherlock Holmes, detetive que segue a mesma lógica dedutiva do detetive Auguste Dupin de Edgar Allan Poe em “Os crimes da Rua Morgue” e outros contos, disse: “Cada um dos contos policiais de Poe é uma raiz da qual desabrocha uma literatura inteira […] O que eram os contos policiais antes que Poe aparecesse e soprasse vida neles?”

E ninguém menos que Júlio Verne, aludindo de forma mais abrangente à literatura de Edgar Allan Poe, acrescenta: “O homem e sua obra, ambos ocupam um lugar importante na história da fantasia, pois Poe criou um gênero diferente, sem precedentes, e, parece-me, levou o segredo consigo. Podemos chamá-lo de ‘chefe da escola da estranheza’”.

O conto é seu gênero literário por excelência. Prefere a história curta ao romance e diz, talvez até exagerando nas cores, que o escritor deve ter toda a trama previamente resolvida e planejada antes de começar. Mais que isto, afirma que todas as palavras objetivam preparar o leitor para o desfecho, inclusive as iniciais, esclarecendo que não se pode iniciar com as palavras erradas sob o risco de perder-se toda a história.

Ele deplora a preocupação didática na literatura. Considera que o papel do escritor é contar histórias, não ensinar. Nem ocupar-se do certo e do errado. Para ele o papel da arte é ocupar-se do belo. O escritor deve tocar a sensibilidade dos leitores; nada mais importa.

Os mais conhecidos de seus contos são os que compõem o volume “Contos de Imaginação e Mistério”, por vezes publicado sob outro título, “Histórias Extraordinárias”. Nele se encontram contos policias e de terror, entre os quais “Os crimes da Rua Morgue”, “O Mistério de Marie Roger”, “O Barril de Amontilado”, “O Escaravelho de Ouro”, história que Poe narra tendo a decifração criptográfica no centro da trama; e outros mais. Pessoalmente gosto muito de “Uma descida no Maelströn”, história em que Poe torna gigante um dos famosos redemoinhos da costa norueguesa, fazendo-o tragar um barco, do qual o tripulante, para safar-se da corrente que tudo engolfa, lança-se do navio às águas para agarrar-se a um simples barril, após observar empiricamente um fenômeno da Física, segundo o qual os objetos maiores afundam mais rápido rumo ao vórtice de um redemoinho.

Muitas das histórias de Poe lançam mão de conhecimentos científicos, sendo a Ciência um tema a que se dedicava. Algumas de suas “teorias científicas” foram posteriormente consideradas equivocadas, outras não, mas isto não é o que importa. Como escritor, influenciou autores da ficção científica.

Edgar Allan Poe publicou um único romance, “A Narrativa de Arthur Gordon Pym de Nantucket”; nele, o personagem segue numa longa viagem em navio baleeiro, com rumo final ao Polo Sul. Ainda que o próprio autor posteriormente tenha desprezado o livro, como sem valor, o romance influenciou as obras de Hermann Melville (Moby Dick) e de Júlio Verne (20 Mil Léguas Submarinas).

Poe começou publicando poesia, gênero que não abandonou. Alguns de seus poemas são antológicos e mundialmente conhecidos, como é o caso de “O Corvo”, “Annabel Lee” e “Para Helena”.

Edgar Allan Poe viveu em profundo sofrimento. Como já se disse, seu espírito desequilibrado e sua alma atribulada levaram-no sempre a uma vida de misérias e desespero. Desde a infância e por toda a vida foi marcado por grandes perdas. Não é sem razão que a morte da mulher amada é tema recorrente em sua poesia. Seu pai abandonou a família quando ele nasceu e, aos dois anos de idade, sua mãe morreu de tuberculose. Aos 27 anos casa-se com sua prima Virgínia, então com 13 anos; alguns anos depois ela também morre de tuberculose. O poeta se entrega ao alcoolismo e ao jogo desde muito jovem, o que o leva a ser expulso da Universidade de Virgínia onde ingressou e, depois, a também ser expulso da Academia Militar de West Point, onde buscava preparar-se para uma vida militar que lhe garantisse estabilidade financeira.

Sua morte aos quarenta anos de idade simboliza seu sofrimento. Morreu num hospital em Baltimore, após ter sido recolhido alguns dias antes das ruas, em estado delirante, provavelmente devido à embriaguez.

ANNABEL LEE 

Edgar Allan Poe

It was many and many a year ago,
In a kingdom by the sea,
That a maiden there lived whom you may know
By the name of Annabel Lee;
And this maiden she lived with no other thought
Than to love and be loved by me.

I was a child and she was a child,
In this kingdom by the sea;
But we loved with a love that was more than love –
I and my Annabel Lee;
With a love that the winged seraphs of heaven
Coveted her and me.

And this was the reason that, long ago,
In this kingdom by the sea,
A wind blew out of a cloud, chilling
My beautiful Annabel Lee;
So that her highborn kinsman came
And bore her away from me,
To shut her up in a sepulchre
In this kingdom by the sea.

The angels, not half so happy in heaven,
Went envying her and me –
Yes! – that was the reason (as all men know,

In this kingdom by the sea)
That the wind came out of the cloud by night,
Chilling and killing my Annabel Lee.

But our love it was stronger by far than the love
Of those who were older than we –
Of many far wiser than we –
And neither the angels in heaven above,
Nor the demons down under the sea,
Can ever dissever my soul from the soul
Of the beautiful Annabel Lee.

For the moon never beams without bringing me dreams
Of the beautiful Annabel Lee;
And the stars never rise but I feel the bright eyes
Of the beautiful Annabel Lee;
And so, all the night-tide, I lie down by the side
Of my darling, my darling, my life and my bride,
In the sepulchre there by the sea,
In her tomb by the sounding sea.

ANNABEL  LEE

Tradução de Fernando Pessoa

Foi há muitos e muitos anos já,
Num reino de ao pé do mar.
Como sabeis todos, vivia lá
Aquela que eu soube amar;
E vivia sem outro pensamento
Que amar-me e eu a adorar.

Eu era criança e ela era criança,
Neste reino ao pé do mar;
Mas o nosso amor era mais que amor —
O meu e o dela a amar;
Um amor que os anjos do céu vieram
a ambos nós invejar.

E foi esta a razão por que, há muitos anos,
Neste reino ao pé do mar,
Um vento saiu duma nuvem, gelando
A linda que eu soube amar;
E o seu parente fidalgo veio
De longe a me a tirar,
Para a fechar num sepulcro
Neste reino ao pé do mar.

E os anjos, menos felizes no céu,
Ainda a nos invejar…
Sim, foi essa a razão (como sabem todos,
Neste reino ao pé do mar)
Que o vento saiu da nuvem de noite
Gelando e matando a que eu soube amar.

Mas o nosso amor era mais que o amor
De muitos mais velhos a amar,
De muitos de mais meditar,
E nem os anjos do céu lá em cima,
Nem demônios debaixo do mar
Poderão separar a minha alma da alma
Da linda que eu soube amar.

Porque os luares tristonhos só me trazem sonhos
Da linda que eu soube amar;
E as estrelas nos ares só me lembram olhares
Da linda que eu soube amar;
E assim ‘stou deitado toda a noite ao lado
Do meu anjo, meu anjo, meu sonho e meu fado,
No sepulcro ao pé do mar,
Ao pé do murmúrio do mar.


Originalmente publicado na Revista da OAB/CAASP. Nº 28 – Ano 6. São Paulo, abril/2017.


Luiz Ferri de Barros é Mestre e Doutor em Filosofia da Educação pela USP, Administrador de Empresas pela FGV, escritor e jornalista.

Publica coluna semanal no Empório do Direito às terças-feiras.

E-mail para contato: barros@velhosguerreiros.com.br.


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