“É só o amor que conhece o que é verdade” – Por...

“É só o amor que conhece o que é verdade” – Por Bernardo Gomes Barbosa Nogueira

Por Bernardo Gomes Barbosa Nogueira  – 03/06/2016

“O medo foi afinal o mestre que mais me fez desaprender”. Essa frase foi dita por Mia Couto em uma conferência no Estoril, na qual ele falava sobre o medo. Esse vilão que nos furta a possibilidade de criar. As amarras impostas pelo medo, entendido como ideologia em um sentido negativo, e percebido como um aprisionamento que impede a percepção do real é o tema que enreda o filme “A vila” de M. Night Shyamalan.

Os moradores de uma vila que se isola da cidade por uma floresta vivem aparentemente de um jeito harmonioso. Na vila não há interferência externa e os anciãos e moradores mais antigos têm a função de organizar a vila colocando todas as coisas em seu lugar. Em uma espécie de fuga dos problemas que a interação e a imprevisibilidade do humano podem trazer, a vila vive em uma espécie de suspensão temporal e espacial. Por lá o tempo é outro.

As pessoas, portanto, teriam desde sempre a determinação de sua existência dada pelas regras daquele local. Suas vidas estariam determinadas para a perpetuação do modelo de vida que aquelas pessoas haviam inventado. A autenticidade no existir é dada quando o humano reflete sobre sua existência e tem em suas mãos as rédeas de seus atos. Essa característica se ausentava do roteiro pronto a que os habitantes dali deveriam seguir.

No entanto, para manter a vila longe das relações externas, os moradores que eram responsáveis pela organização da vila criaram uma série de artifícios e mantinham o controle sobre a própria imaginação dos moradores. As ideologias em sentido negativo criam uma realidade que não existe. Por evidente poderíamos discutir se de fato há uma realidade ou se apenas temos acesso às nossas construções ou às interpretações que temos do real, mas não é esse o nosso caminho.

No caso do filme, os organizadores da vila se valeram do medo para sustentar essa ideologia e impedir seus moradores de ir além dos limites da vila. Esse ardil que impede a criação seria mesmo o pior dos aprisionamentos, pois retira humanidade do humano que tem como característica sua incompletude e a necessidade de transcender-se a si para sua própria construção. O aprisionamento ideológico seria o algoz da vida humana.

Há uma personagem que é cega e é exatamente esse paradoxo que nos encanta no filme. Ela não vê, mas vê. Os outros moradores enxergam, mas não alcançam a realidade que está encoberta pela ideologia inventada. Assim, uma reflexão resta importante. A única maneira de convencer o pai de que precisava ir à cidade é a necessidade de buscar um medicamento para salvar o homem que amava. O amor fez o pai revelar à sua filha o segredo da farsa que inventaram sobre os seres que viviam na floresta. O amor fez com que a mentira fosse revelada. O amor fez a garota cega atravessar a floresta antes temida e buscar o remédio que salvaria seu amado.

Esse medo inventado furtava às pessoas toda a poesia do existir, retirando delas o imprevisível e o inevitável, pois a elas era imposto até mesmo os medos. Assim, percebe-se bem o que Mia Couto quis dizer, ora, o medo nos impede, nos limita, pelo fato de encobrir uma parcela da vida. Ele deixa ver só o que quer. Esse é o mal da ideologia. Impedir uma visita ao real. Determinar rotas. Direcionar os atos. Não permitir o novo. A humanidade furtada fora devolvida à jovem cega. O medo agora não era mais o inventado. O medo da jovem nascia de dentro de si, de dentro do seu coração que batia na medida do medo de perder seu amor. Se há um medo que vale, talvez seja este: o que nos dá lucidez para morrer sem medo, por amor.


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Bernardo Gomes Barbosa Nogueira é Doutorando em Teoria do Direito pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais; Mestre em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Especialização em Filosofia pela Universidade Federal de Ouro Preto. Professor da Escola de Direito do Centro Universitário Newton Paiva.
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