Cinema: Doze Homens e uma Sentença – Por Luiz Ferri de Barros

Cinema: Doze Homens e uma Sentença – Por Luiz Ferri de Barros

Por Luiz Ferri de Barros – 17/05/2016

Doze Homens e uma Sentença, de 1957, é o filme de estreia de Sidney Lumet no cinema.  Até então o diretor, que se tornaria um dos principais cineastas hollywoodianos, apenas trabalhara na televisão. Aliás, o filme originou-se de uma peça de teleteatro escrita para a TV americana CBS pelo autor Reginald Rose, que também assina o roteiro da produção cinematográfica.

O foco da narrativa é o debate dos jurados na sala de deliberação do júri ao final do julgamento de um jovem porto-riquenho acusado de ter matado o pai. A história inicia-se na sala de audiências com o juiz prestando as orientações aos jurados sobre as características do veredicto, que deve ser unânime.  No caso de o júri deliberar pela culpa do réu, o juiz ainda adverte os jurados, a pena será a cadeira elétrica.

O filme avança invocando alguns princípios jurídicos e o drama se avulta na complexidade de muitos conflitos entre os jurados, que a cada vez mais desnudam suas personalidades complexas, distintas e antagônicas.

Henry Fonda, em papel muito apropriado para seu carisma low profile, é não apenas o protagonista como um dos produtores do filme, conjuntamente com Reginald Rose. Lee J. Cobb, seu principal antagonista, tem uma atuação extraordinária. O diretor consegue de todo o elenco um desempenho emocionalmente arrebatado e realista.

Beyond a Reasonable Doubt (para além de qualquer dúvida razoável) é o nível de certeza que os jurados devem ter na culpabilidade do réu para declará-lo culpado. Não havendo esse nível de certeza é obrigação do júri declarar o réu inocente. Esse princípio, enunciado pelo juiz em suas orientações, impede a unanimidade necessária para a decisão pela culpa do jovem: na primeira rodada de votação, onze jurados votam pela culpa, porém o oitavo jurado (Henry Fonda) vota not guilty.  Contrariando a expectativa geral de que a decisão pela sentença seria rápida e fácil, a partir dessa dissidência estabelecida é que os debates se acirram calorosamente.

Neste ponto deve ser levada em conta uma sutil questão linguística e doutrinária: o oitavo jurado não enuncia que o réu é inocente – conforme a tradução em português apresentada na legenda. Ele afirma que seu voto representa a conclusão de que o jovem é not guilty – “não culpado”… beyond a reasonable doubt. Em outras palavras, questionado diretamente, ele diz que não sabe se o réu é inocente ou não, porém restam-lhe dúvidas razoáveis que o impedem de condená-lo à morte.

A instituição do júri, em que cidadãos são convocados anonimamente para definir o resultado de julgamentos de crimes de outros cidadãos é louvada por Sidney Lumet como um tributo à democracia. Na abertura e no fechamento do filme, surgem as imponentes colunas da fachada e o majestoso átrio da corte, representações reverenciais com que o cineasta reveste o cruel conflito humano que se desenlaça entre os jurados à busca da justiça e da verdade em meio a preconceitos, ódio, desinteresse e terríveis projeções psicológicas.

Com farto uso de cenas em close e travellings também em close, a fotografia em preto e branco enriquece a atmosfera da película.

Quarenta anos mais tarde, em 1997 um remake de excelente qualidade foi dirigido por William Friedkin, tendo Jack Lemmon no papel do oitavo jurado e George C. Scott como o principal antagonista.

A história é também um clássico teatral, como comprova o espetáculo dirigido por Eduardo Tolentino que recentemente fez temporada brasileira mantendo-se três anos em cartaz.


Originalmente publicado na Revista da CAASP/OAB. Ano 4. Nº 15. São Paulo, fevereiro de 2015.


Luiz Ferri de Barros é Mestre e Doutor em Filosofia da Educação pela USP, Administrador de Empresas pela FGV, escritor e jornalista.

Publica coluna semanal no Empório do Direito às terças-feiras.                                        

E-mail para contato: barros@velhosguerreiros.com.br.


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