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Diálogos sobre a obra: “Um novo paradigma: para compreender o mundo de hoje”, de Alain Touraine – Por Phillip Gil França e Talissa Truccolo Reato

Por Phillip Gil França e Talissa Truccolo Reato – 07/07/2016

Nas carteiras do Programa de Pós-Graduação em Direito – Mestrado, da Universidade de Passo Fundo/RS, encontramos muitos talentos que iniciam e desenvolvem suas pesquisas com o desiderato de multiplicar e dividir conhecimento.

A partir desta constatação, sinto-me na obrigação de compartilhar com o público os bons momentos acadêmicos vivenciados com meus alunos. Em especial, gostaria de disponibilizar o conteúdo de debates realizados em sala de aula, pois julgo pertinente para boas e produtivas reflexões neste ambiente democrático do saber.

Assim, inicio essa fase da nossa coluna no ´Empório do Direito´ com a análise da aluna Talissa Reato sobre a seguinte obra: “TOURAINE, Alain. Um novo paradigma: para compreender o mundo de hoje; tradução de Gentil Avelino Titton. 4 ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2011”.

Registro a alegria de constatar que o presente texto compreende o resultado, já amadurecido, dos diálogos que Talissa desenvolveu em sala de aula com seu Professor e com seus colegas.

Nada mais positivo para um Professor de Mestrado do que observar, concretamente, que os produtivos colóquios construídos em sala de aula são, efetivamente, instrumentos de construção de boa pesquisa jurídica.

A visão crítica, ora apresentada, sobre a questão de fundo “compreensão do mundo”, logicamente, demanda uma ótica multidisciplinar sobre o futuro que queremos, a partir da realidade que vivemos, somado à experiências que tivemos.

Quais os fatores que influencias essa nossa trajetória e as razões que definem como podemos iluminar tais caminhos são preocupações que precisam estar presentes em nossas mentes.

Logo, para bem escorar pilares firmes de reflexões críticas ainda mais profícuas sobre o ser e o existir do ser humano, base para construção de sólidos trabalhos científicos, indicamos a seguinte resenha aos nossos leitores.

Logicamente, permanecemos à disposição para o bom debate! 


O presente texto foi elaborado a partir da obra “Um novo paradigma: para compreender o mundo de hoje” escrito pelo sociólogo francês Alain Touraine. Os escritos são fruto da interpretação livre da obra mencionada, com comentários adicionais e trechos retirados (na íntegra ou parafraseados) do referido livro.

Embora um tanto extensa, a presente abordagem exibe sintéticas reflexões e trechos extraídos da obra “Um novo paradigma: para compreender o mundo de hoje” escrita por Alain Touraine. Dessa forma, premente expor que a publicação do exemplar em comento se deu há uma década, o que não desmerece a atualidade do texto, embora em determinados aspectos se possa refletir de forma ainda mais hodierna.

Cabe inicialmente expor que a obra é farta em detalhes, de modo que se intentou na análise abarcar apenas elementos apresentados pelo autor denotados mais relevantes. Apenas a leitura integral (recomendada) do livro pode gerar uma noção da dimensão da obra e da fiel intensão do autor em cada fragmento, que perpassa por vários aspectos coligados entre si, incluindo situações fáticas que ilustram o itinerário do novo paradigma apresentado. Findo o esclarecimento, passa-se a resenha reflexiva.

Embora não se possam delimitar os termos dos paradigmas, havendo uma espécie de período de transição entre um paradigma e outro, entende-se que o escrito analisado justifica que não vige mais o paradigma político, sequer o econômico-social, mas que vivenciamos um novo paradigma. Significa dizer que os problemas culturais adquiriram tamanha importância que o pensamento social deve se organizar ao redor deles.

Comenta-se, apartado da integralidade do livro, que parece que rotular uma “era da sociedade” não foi pretensão do autor ao usar a expressão “paradigma”. Crê-se que definir precisamente a época em que “vigorou” cada um dos paradigmas mencionados não foi em momento algum o anseio do sociólogo, dado que não determina com precisão (em anos, por exemplo) a época de predomínio de cada um dos paradigmas, embora sugira a partir de fatos sociais marcos que poderiam servir de baliza.

Apontar um início e um fim para cada um dos paradigmas não parece ideal, sobretudo porque o ritmo das sociedades globais não é uniforme. Basta observar robustas desigualdades entre os Estados no que tange a distribuição de renda, saúde, educação, etc. Em outros termos, o paradigma cultural, embora seja uma realidade genérica global, não é idêntico se observado sob a perspectiva de uma sociedade mais desenvolvida em relação à outra carente em termos econômicos e, por consequência, tecnológicos.

Portanto, definir um marco inicial e afirmar que o paradigma cultural é uniforme em toda e qualquer sociedade não é congruente. Essa colocação não significa dizer que o autor generaliza a intensidade do paradigma cultural no mundo. O que se expõe é que quando se trabalha uma tendência, como no caso em tela, é preciso ter a consciência de que os Estados são dotados das mais diversas disparidades, sejam financeiras, étnicas ou religiosas.

Isto posto, nesse novo paradigma se encontra o tema da informação, que designa uma revolução tecnológica cujos efeitos sociais e culturais são visíveis por toda a parte. Criou-se uma situação nova por causa da grande flexibilidade social dos sistemas de informação. Destarte, há uma inquietude decorrente da perda dos pontos de referência tradicionais.

Neste aspecto é preciso uma pausa para reflexão. As preocupações da humanidade se centravam basicamente na ideia da luta de classes (proveniente da industrialização), na qual os direitos trabalhistas foram por muitos anos o principal foco do pensamento social. Isso não quer dizer que atualmente não existam preocupações e disparidades nas relações laborais, mas outras reivindicações surgiram no cerne dos embates sociais.

No paradigma social não se debatiam com tanto fervor questões de sexualidade, das minorias, dos deficientes, dos imigrantes, das mulheres, dos indígenas, etc. como se abordam atualmente no vigente paradigma cultural. A “era da informação” seria a grande responsável por essa alteração paradigmática?

Numa posição independente, crê-se que há uma forte correlação entre tecnologia e as novas temáticas sociais. Caso não houvesse referida ligação, seria uma coincidência intrigante que a partir do fluxo acelerado de informações emergiram assuntos que antes hibernavam no pensamento social.

Tomando como exemplo a temática da sexualidade, debate-se a questão não somente entre amigos, nas instituições de ensino ou em casa. O tema da sexualidade hoje em dia pode ser visto frequentemente em programas de televisão, de rádio, em páginas na internet e redes sociais. No referido exemplo é possível notar que o fomento da questão da sexualidade nos debates sociais implicou mudanças, dado que há anos era impraticável a regularização civil de uniões homoafetivas ou a adoção por casais do mesmo sexo, o que é hoje é comum.

As temáticas debatidas hodiernamente perpassam por diversas fontes de informação, sobretudo devido à internet. E se há uma espécie de aflição social generalizada decorrente do afastamento das antigas designações é porque de fato estamos num paradigma desafiador.

As novas tecnologias não surgiram com o intuito de combater mazelas do paradigma social e cultural. Os problemas financeiros das sociedades continuam proliferando, de modo que a “era da informação” gera conforto somente aos que tem acesso aos produtos e serviços (e dos que se endividam para tê-los).

Menciona o autor que cada vez que o nosso olhar muda sobre nós mesmos, nosso meio ambiente e nossa história, temos a impressão de que o antigo mundo ruiu. Assim, urge uma nova representação da vida social (e, portanto, um novo paradigma para que se compreenda o mundo atual).

Portanto, vê-se que a ideia defendida pela obra é que se está mudando de paradigma sobre a representação da vida coletiva e pessoal. Assim, o livro intenta apresentar a passagem da linguagem social sobre a vida coletiva para a linguagem cultural. A produção analisada se fragmenta em duas partes, sendo que a primeira analisa o fim do social e os fenômenos de decomposição social e de dessocialização; já a segunda mostra o encontro de duas noções que estão no centro do novo paradigma: o sujeito e os direitos culturais.

Após a parcela introdutória, adentra-se na primeira parte, a qual é intitulada “quando falávamos de nós em termos sociais”. Inicia-se demonstrando o que chama de “a ruptura”, destacando o fatídico 11 de setembro de 2001, data na qual houve, então, uma ruptura, dado que símbolos de poder econômico e militar dos Estados Unidos foram atacados, emergindo uma obsessão norte-americana na defesa do bem em face do mal.

Pode-se apreender que embora a obra aponte a queda do “World Trade Center” como o vultoso marco da ruptura, não significa que foi no trágico episódio que iniciou o paradigma cultural. A interpretação da ruptura gera mais de uma perspectiva. Ressalta-se a insegurança decorrente do ataque. As sociedades passaram a observar que nem a hegemonia, nem o acervo bélico, nem o poder econômico norte americano foram suficientes para deter o adversário. Tal pensamento causa não só temor global, mas uma desconfortável sensação de desproteção.

No trecho seguinte se nota uma interessante análise sobre o retrocesso do mundo, no qual centenas de milhões de seres humanos são obrigadas a abandonar seu país de origem por causa da miséria, da violência social e das próprias guerras, são jogados à beira das estradas e amontoados em campos de refugiados.

Muitos desempregados acabam sendo atraídos pelas “luzes do consumo urbano” e, mesmo involuntariamente, vivem mudanças geográficas e socioculturais que ao invés de fazê-los entrar na modernidade, os destroem. Dessa forma, as desigualdades sociais aumentam ao invés de diminuir.

As aparentes oportunidades de progresso nos países com maior desenvolvimento econômico nem sempre atendem os anseios dos insatisfeitos, os quais sofrem não apenas pela disparidade linguística, cultural e religiosa, mas também pelas práticas xenofóbicas e, em muitos casos, pelos abusos ante a ausência de legislações e políticas públicas protetivas.

Nessa conjuntura se clama a reflexão acerca do impacto do multiculturalismo no fluxo da vida global, que somada ao consumismo exacerbado e as promessas de melhoria, criam um paradoxo econômico no qual, embora haja oportunidade de progresso, as dificuldades sociais emergem proliferando a escassez das necessidades básicas.

A obra investiga mudanças profundas ocorridas em nossas sociedades, apontando os Estados Unidos como ator principal, dado que hodiernamente é o referido país que comanda o consumo e as comunicações de massa, sobretudo pela superioridade científica e tecnológica praticamente incontestável.

Numa observação aquém da obra se pode pensar que a potência norte-americana é tão imponente que há uma tendência cada vez maior ao monopólio estadunidense de informação. A indústria cultural e a sociedade consumerista são responsáveis não apenas pela ascensão do individualismo em detrimento da sociedade, mas pelas razões do hodierno fluxo migratório.

Embora de forma desigual no planeta, vive-se um período complicado de adaptação à instantaneidade, no qual há abundante comunicação virtual, mas isolamento individual. Não obstante, a facilidade de locomoção de um país ao outro não significa acessibilidade cultural e laboral. Não é novidade que os interesses econômicos e políticos se sobrepõem aos interesses humanos de cidadania e democracia.

É impactante o expoente que o livro apresenta: estamos assistindo a decomposição do social, de modo que a organização social, ameaçada pela globalização, não encontra mais nela própria os meios para reerguer-se.

Observa-se um apelo cada vez mais radical e apaixonado ao indivíduo, e não mais à sociedade (como outrora nos paradigmas passados). A questão é que no chamado “universo individualista” se pode encontrar um sentido que não se obtém mais nas instituições sociais e políticas.

Neste ponto se observa o enfraquecimento da sociedade em relação ao individualismo, sobretudo quando relacionado à globalização. Numa colocação pessoal se denota que os seres humanos tendem a não se identificar mais com as sociedades nas quais estão inseridos. As razões são diversas: pode ser que multiculturalismo venha a predominar a ponto de haver uma miscigenação tão ampla que implica no desaparecimento de grupos demasiadamente fechados em prol de um comportamento misto; pode ser que as tecnologias avançadas façam com que os seres humanos gradativamente se contraiam numa esfera atingível apenas via eletrônica; pode ser que a identidade nacional venha a ser totalmente preterida em relação a uma identidade global, etc.

Opções não faltam para justificar o fim da sociedade e o fortalecimento do universo individualista, mas todas tem relação com o aumento da intensidade da globalização (que sempre existiu, mas que em função da proliferação da informação e da comunicação está cada vez mais evidente).

A segunda parcela da parte inicial intitulada “a mundialização” preliminarmente aduz que o Estado intervencionista foi gradualmente substituído por um Estado que procura atrair os investimentos estrangeiros. Transformações são consequências da internacionalização da produção e dos intercâmbios que vão desembocar na globalização da economia.

A contumaz emissão e o recorrente processamento de informações são a medula desse novo paradigma, constatação pessoal. A facilidade das novas tecnologias associadas ao câmbio de informações intervém incitando o crescimento dos bens de consumo. Evidente que as empresas, sobretudo as multinacionais, desfrutam da internacionalização para prosperar os negócios no mercado, muitas vezes sem condolências ambientais e humanas.

Introduz-se nesse momento uma parte distinta do livro, na qual o autor trabalha a expressão “altermundialismo”. Trata-se de uma nova nomenclatura do movimento antiglobal. O altermundialismo não seria contra a abertura mundial da produção e dos intercâmbios, mas exige uma mundialização que não esmague os fracos, os interesses locais, as minorias e o meio ambiente em proveito unicamente dos que já detém a riqueza, o poder e a influência.

A chave é o equilíbrio da mundialização. Não há como conter a internacionalização da produção, até porque os Estados que poderiam desviar os intercâmbios não tem interesse na desaceleração da globalização da economia.

Como na prática não se pode reiniciar o planeta e aplicar a proposta de Dworkin de um leilão igualitário, cabe lembrar os detentores da riqueza mundial sobre sua condição de ser humano mortal (tal como os desafortunados economicamente) e sobre a responsabilidade de suas ações para com as gerações futuras.

O segmento seguinte exige uma cautela diferenciada porque retrata aspectos para que a Europa se torne (ou não) um “Estado sem nação”. Aduz-se estar perante a decomposição da sociedade e do consequente enfraquecimento dos Estados nacionais. Assim, a União Europeia idealiza uma vontade política, uma cultura e uma consciência comum de cidadania (mesmo que nem sempre a realidade social de tal modelo seja plenamente concebida).

Assim, ingleses, alemães ou franceses (a título exemplificativo) já não identificariam sua consciência nacional com a política de seu Estado. A Europa seria, portanto, o exemplo mais convincente de criação de uma unidade política e econômica supranacional. No entanto, muito recentemente vislumbrou-se que toda união pode romper-se.

O impacto financeiro da separação do Reino Unido da União Europeia é evidente, não apenas no continente europeu, mas fatalmente haverá reflexos globais. No entanto, o rumo do Reino Unido como integrante da União Europeia se encontra temporariamente indefinido, já que doses de arrependimentos estão encobrindo os afetos, existindo possibilidade de a aliança retornar.

Talvez mesmo sem o propósito claro, o autor descreve óbices da União Europeia. Há na obra uma ressalva que conforme a Europa intervém nos seus membros, torna-se fechada em si mesma e nem sempre desempenha um papel importante nos negócios do mundo. O que impede a Europa de ser um verdadeiro Estado é que ela não tem uma política internacional.

Outras informações capturadas do livro mostram que a Europa está longe de construir um Estado, contudo há uma real tendência a isso, embora a própria União Europeia renuncie o ímpeto de substituir completamente os Estados. Ainda é comentado que atualmente a Europa figura uma zona de pouco progresso, talvez estagnada, sobretudo num mundo transtornado pelo crescimento da China e pela hegemonia americana.

Pode-se pensar, inclusive, que a partir da evasão do Reino Unido da União Europeia, outros países descontentes possam ter a mesma atitude (considerando que o referido Estado não regresse ao bloco econômico). Deduz-se que o próprio eurocentrismo está gradativamente abalado, não somente pelo poder norte-americano e pela força chinesa, mas porque a Europa está atormentada pelo impacto da hodierna “era da informação” de dimensões globais.

“O fim da sociedade”, quarto segmento do objeto inicial, entre outras colocações, aponta que onde a heterogeneidade política, social e cultural é muito ampla, quando um país é permeado por diferenças regionais, por barreiras linguísticas ou religiosas, o Estado nacional se transforma em vontade nacionalista, em afirmação da unidade de uma nação que não existe de fato.

Não precisa desbravar o globo para encontrar um Estado no qual existem diferenças culturais significativas, com hábitos, clima, culinária e religiões deveras distintas. O Brasil é um relevante exemplo de heterogeneidade cultural, sobretudo pela dimensão continental. No entanto, não se pode dizer que o Brasil não existe como nação. Apesar da dessocialização e da identidade global estarem em ampla ascensão, num dizer pessoal, crê-se ser precoce aduzir que referido Estado não passa de uma vontade nacionalista, talvez futuramente.

Retomando os dizeres do sociólogo francês na obra, os seres humanos estão vivendo em sociedades que estão descontentes consigo mesmas, nas quais cada um manipula para si expectativas. Nota-se que a população mundial está assistindo uma transferência de valores da sociedade para os indivíduos e entrando numa nova representação do mundo econômico.

Sendo assim, os grupos de proximidade (família, amigos, companheiros, meio escolar ou profissional) parecem estar em crise por toda parte, deixando o indivíduo numa solidão que leva ou à depressão ou à busca de relações artificiais e perigosas.

As relações entre seres humanos tendem a se tornar mais virtuais do que corpóreas. A referida crise desorienta as referências habituais de modo que a sociedade não é mais vista como um porto seguro, o que ascende o individualismo inserido num fluxo de informações somado a intrépida economia mundial.

Segundo o escritor, por mais que a decomposição do antigo sistema prepare a vinda de novos atores e novos tipos de cultura e de sociedade, leva também a submissão cada vez mais total à dominação do mercado.

Destaca-se no livro uma preocupação em perceber de qual maneira o individuo é manipulado pela propaganda e pela publicidade e de qual forma as pessoas lutam contra a sociedade de massa, a impessoalidade dos mercados e a violência da guerra num mundo globalizado.

A preocupação do autor é contundente. A manipulação da indústria publicitária é tão recorrente que sequer se percebe a influência da propaganda nas decisões, sobretudo nas cotidianas. Combater a sociedade de massa é deveras árduo no mundo capitalista. Não se trata de julgar e imaginar como seria a economia global caso fosse implementado o comunismo ou o socialismo nos Estados. Trata-se de aceitar a realidade capitalista dos fatos e trabalhar para que os seres humanos não se tornem meros fantoches do mercado e dos detentores de poder. É preciso reflexão para encontrar um meio de driblar o envolvimento informacional para sobreviver às insídias da economia mundializada.

Eis uma interessante incongruência que a obra instiga a pensar: a dessocialização que o mundo vivencia conduz à destruição dos laços sociais, à solidão, à crise de identidade, ao mesmo tempo em que liberta as pessoas das pertenças e das regras impostas.

Isso significa que se está diante de uma via dupla: de um lado o individualismo aflora um exílio; em contrapartida, a dessocialização oferece liberdade das condições impostas pelo convívio social. É uma tendência confusa e paradoxal porque não parece aceitável que o isolamento, mesmo que acompanhado de um subsídio virtual, substitua uma roda de amigos com presenças palpáveis, ainda que haja submissão a imperativos sociais.

O autor introduz a concepção de sujeito dado que para ele a destruição da ideia de sociedade só pode salvar os seres humanos de uma catástrofe se levar à construção da ideia de sujeito, à busca de uma ação que não procure nem o lucro, nem o poder, nem a glória, mas que afirme a dignidade de cada ser humano e o respeito que cada um merece.

Outro aspecto deveras interessante da obra para reflexão: a sociedade que a sociologia clássica nos descrevia se assemelhava a um castelo de pedra; já a nossa sociedade assemelha-se às paisagens em movimento. Trata-se de uma analogia intrigante sobre o fluxo global com a qual o sociólogo encaminha o epílogo do primeiro ato da obra.

O ser humano vendo a si próprio como um sujeito de direito e de deveres seria a porta para escapar da solidão, das relações artificiais e da ferocidade da economia globalizada. O pensamento social ao redor das questões culturais demonstra não apenas a dessocialização, mas a dinâmica das relações comportamentais das pessoas em relação às próprias pessoas e da visão humanitária perante uma congregação global tão ativa que é atribulado acompanhar a fugacidade das transformações.

A segunda parte do livro intitulada “agora que falamos de nós em termos culturais” retrata inicialmente a questão do sujeito (já comentada na parte pretérita). O autor descreve que na medida em que os novos poderes triunfavam, as pessoas iam se descobrindo numa realidade mais concreta: primeiro cidadãos, depois trabalhadores e atualmente seres culturais, seres de gênero e de sexualidade.

Um dos títulos do segundo fragmento aborda “os direitos culturais”. O autor escreve, então, que a referida decomposição da sociedade (na qual cada elemento cumpre uma função, socializa com outros membros e pune quem não respeita as normas) leva a um individualismo que se contrapõe a aplicação das regras da vida coletiva e as substitui pelas leis de mercado, influenciadas pela publicidade.

Nos dias atuais, quando o multiculturalismo é analisado não se pensa mais no conflito entre israelenses e palestinos, mas sim na formação ou no desenvolvimento das comunidades ou das minorias formadas em consequência de migrações, expulsões e exílios.

Infere-se da obra também que se vive o enfraquecimento das comunidades nacionais e o reforço das comunidades étnicas. Desse modo, é preciso que sejam defendidas as minorias, desde que haja respeito à democracia da maioria.

Nesse aspecto surge outro paradoxo: se por um lado a globalização no contexto da multiconectividade fomenta o fim das sociedades e da identificação nacional em prol de uma visão mundialista, individualista e respaldada pelas leis de mercado, é verdade também que há um crescimento das identidades étnicas. Nesse sentido os Estados tenderiam a desaparecer porque os seres humanos se identificariam como globais ou como locais, e não mais com a sociedade estatal.

É prematuro tal pensamento, mesmo sendo coerente. Uma breve ilustração do referido raciocínio parece interessante: uma pessoa nascida e criada no estado-membro brasileiro do Rio Grande do Sul e outra no estado-membro brasileiro de Pernambuco, muito em função da internacionalização do mercado e da mundialização das informações, podem ambas com facilidade adquirir bens diretamente de outros países, podem num simples acesso à internet ter conhecimento de notícias em tempo real de fatos mundiais, sem conjecturar todas as implicações que o fenômeno migratório e o multiculturalismo acarretam. Isso faz com que o referido gaúcho e o referido pernambucano possam se considerar “seres globais”.

Não obstante, este gaúcho que toma chimarrão, que assa churrasco (generalizando para exemplificar), identifica-se com a cultura na qual foi criado, a cultura local. Ocorre que o referido rio grandense do sul é tão brasileiro quanto o pernambucano, sendo que a culinária, a dança e o clima de Pernambuco e do Rio Grande do Sul são significativamente diferentes.

O que se quer dizer, portanto, é que embora o nordestino e o sulista pertençam ao mesmo Estado-nação, sendo ambos brasileiros, um não se identifica com a cultura do outro, mas sim cada qual com a sua essência local, o que enfraquece a sociedade nacional. Desse modo, o Estado-nação paulatinamente é preterido em relação aos grupos locais e globais.

No entanto, referido pensamento pode ser descontruído se supormos que o global irá fatalmente predominar em detrimento do local considerando, sobretudo, o multiculturalismo e os fluxos migratórios. Isso significa que existe uma ampla tendência à interferência de uma cultura em outra. Em outros termos, pernambucanos se instalam no Rio Grande do Sul e trazem consigo elementos e costumes étnicos, gastronômicos e religiosos, bem como gaúchos migram para Pernambuco fazendo o mesmo, assim a cultura local experimenta intervenções.

Tal fenômeno não é limitado às fronteiras nacionais. Muitos africanos se estabelecem na América, americanos na Europa, europeus na Ásia, asiáticos na Oceania, etc. Isso não quer dizer que as migrações são fenômenos apenas hodiernos, mas a globalização somada a “era da informação” e ao mercado econômico global atual afloraram em demasia o multiculturalismo a ponto se de haver uma tendência ao predomínio da identidade global em prejuízo das afinidades locais e nacionais.

Cabe aqui relatar uma passagem inolvidável: quem prefere não ver as diversidades nas modernizações não percebe que, por um lado, uma sociedade de massa impõe seu poder em todos os domínios da produção, do consumo e da comunicação e, por outro, culturas fechadas em si mesmas, particularmente em suas crenças religiosas, tem como alvo principal não a modernização, mas a guerra contra o poder hegemônico, político e cultural dos outros países.

Acerca do multiculturalismo a obra apresenta que novas soluções serão encontradas apenas no reconhecimento de diversas culturas (no que tange religião, língua ou vestuário). O pluralismo das culturas é uma necessidade num mundo em movimento acelerado.

Deste modo, pode-se verificar que na medida em que se misturam as populações num mundo cada vez mais nômade, tais choques culturais podem desembocar na absorção de um grupo por outro ou na guerra entre eles, mas, sobretudo na comunicação intercultural, embora tenha que se atentar na assimetria de poder, na qual uma cultura prevalece em relação à outra.

Outro ponto salientado, em consonância com a intensão de “compreender o mundo de hoje”, é o que explica que a sociedade já foi (com suas instituições, normas, modos de dominação e de vigilâncias) quem produzia os atores sociais. No entanto, hodiernamente, o objeto principal não é mais a sociedade, mas atores que já são mais que sociais, porque são definidos não apenas por suas pertenças e por relações sociais, mas também por direitos culturais, de modo que são realmente indivíduos completos.

Quem crê na necessidade de estabelecer uma identidade local ou, até mesmo, nacional, para que as pessoas se afirmem como seres humanos pertencentes a uma cultura e não a outra, deve perceber que tal necessidade está estremecida. A mundialização gera “indivíduos completos” dotados de relações sociais e direitos culturais, e essa é uma consequência irreversível da globalização.

Em seguida a obra retrata outra matéria fulcral: “uma sociedade de mulheres”. Para tanto, afirma que o movimento feminista adquiriu uma força crescente e impôs reformas importantes, de tal modo que se pode ter uma visão equilibrada a respeito da situação das mulheres, ainda submetidas à desigualdade, mas tendo conquistado direitos e os meios de gerir livremente muitos aspectos de sua vida, e, particularmente, o uso de seu corpo.

O autor afirma que a relação com o corpo ocupa na sociedade de hoje um lugar tão central como o que foi ocupado pelo trabalho na sociedade industrial ou pelo estatuto político de liberdade ou de escravidão nas sociedades políticas. Desse modo, as mulheres lutam para que sejam abolidas a discriminação e a injustiça a fim de que sejam reconhecidas tanto suas diferenças quanto suas igualdades em relação aos homens.

É interessante a colocação acima porque permite observar a mudança evolutiva do pensamento social, além de retomar o âmago da obra: o itinerário para atingir o paradigma cultural e seus aspectos fulcrais. No paradigma político o foco dos debates dizia respeito à escravização e à liberdade; no paradigma social eram discutidas questões trabalhistas; e, atualmente, abordam-se problemas culturais.

Por fim, a obra determina um papel central das mulheres nesta mutação cultural. Aduz que não se trata de uma marcha para uma sociedade de igualdade entre homens e mulheres, mas que atualmente já entramos numa sociedade de mulheres.

Um tanto robusta a afirmação da obra. Talvez já tenhamos entrado numa sociedade de mulheres, mas não em todo o mundo. Determinadas práticas agridem a dignidade feminina, como a mutilação genital, agressão, assédio, etc. No entanto, comparando com o passado (não tão distante), as mulheres obtiveram um ganho de espaço expressivo no mercado de trabalho, nas universidades, nos cargos públicos, mesmo ainda sendo inferior ao masculino.

Portanto, pode-se entender que as mulheres foram grandes responsáveis pelo advento do paradigma cultural. Embora o caminho ainda seja longo em busca do reconhecimento dos plenos direitos das mulheres, graves problemas antes ocultados na sociedade hoje recebem maior atenção, como é o caso da violência doméstica, do aborto, do estupro, entre outros.

Pelo exposto, é possível que em determinados trechos não tenha sido mantida a fiel veemência do autor, dada à ampla vinculação de ideias, mas se acredita que a essência foi preservada. A obra abrange a realidade global, sobretudo por explicar o paradigma cultural, proporcionando temáticas que poderiam isoladamente originar um frenesi de ideias.

Pode-se refletir que o mundo vive um surto de conectividade, mesmo que em graus distintos de acordo com o poder econômico. Observa-se uma interatividade impraticável há não muito tempo. O pensamento social é amplamente influenciado pela abundante comutação de informações, e, sendo assim, o paradigma cultural traz para o ceio das discussões questões que sempre mereceram apreço, mas que recentemente emergiram para o foco comunicativo.

Mesmo que lentamente, está-se despertando para a proteção legal, jurídica e humana dos que carecem atenção diferenciada, sobretudo as minorias. Hoje, além do desenvolvimento legislativo, discutem-se políticas públicas que fomentam o respeito aos idosos, aos indígenas, aos deficientes, às mulheres, entre outros, o que reflete o progresso do pensamento social no turbulento cenário econômico, político, social e tecnológico global que desencadeou o novo paradigma cultural.


autorPhillip Gil França é Pós-doutor (CAPES_PNPD), Doutor e Mestre em direito do Estado pela PUC/RS, com pesquisas em “Doutorado sanduíche – CAPES” na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Membro do Instituto dos Advogados do Paraná. Professor de Direito Administrativo (mestrado e graduação) da Universidade de Passo Fundo, autor dos livros “Controle da Administração Pública”, 3 Ed. (RT, 2011) e “Ato Administrativo e Interesse Público”, 2 Ed (RT, 2014), e tradutor da obra “O Princípio da Sustentabilidade – transformando direito e governança“, de Klaus Bosselmann. Professor dos Cursos de Especialização do IDP (Brasília), Abdconst (Curitiba) e Unibrasil (Curitiba). Email: phillipfranca@hotmail.com / Facebook: Phillip Gil França


Talissa Truccolo Reato é Mestranda em Direito na Universidade de Passo Fundo.


Imagem Ilustrativa do Post: Book // Foto de: Federico Feroldi // Sem alterações

Disponível em: https://www.flickr.com/photos/federicoferoldifoto/12031385344

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