Corte Suprema de Israel encerra a disputa por originais de Kafka –...

Corte Suprema de Israel encerra a disputa por originais de Kafka – Por Luiz Ferri de Barros

Por Luiz Ferri de Barros – 16/08/2016

A Corte Suprema de Israel decidiu, na semana passada, que manuscritos de Franz Kafka devem permanecer na Biblioteca Nacional do país, segundo despacho da agência de notícias AFP publicado com destaque em jornais de todo o mundo. Veja o leitor, por exemplo, a matéria de 9/08/2016 divulgada pelo jornal O Estado de São Paulo: http://cultura.estadao.com.br/noticias/literatura,disputa-por-manuscritos-de-kafka-chega-ao-fim,10000068255

Em 01/09/2015,  em artigo no Empório do Direito sobre a obra de Kafka, em especial sobre O Processo e Na Colônia Penal, http://emporiododireito.com.br/kafka-absurdo-e-realidade-%EF%BB%BFpor-luiz-ferri-de-barros/ , fiz referência a essa ação judicial.

Destaco o que na ocasião escrevi sobre o tema:

Uma causa kafkiana

Manuscritos originais de Kafka são alvo de litígio judicial entre a Biblioteca Nacional de Israel e o Arquivo de Literatura Alemã, segundo Judith Butler, professora da Universidade de Berkeley. Alguns argumentos desse processo foram discutidos por ela no Museu Britânico em fevereiro de 2011, na conferência intitulada Who Owns Kafka? – Quem é dono de Kafka? –. O processo originou-se com a morte de Esther Hoffe, aos 101 anos de idade, em 2007. Esther guardava em cofre certa quantidade de manuscritos do escritor que passaram a ser considerados bens culturais, instalando-se a disputa quanto ao pertencimento judaico (israelense) ou alemão de tais bens, em mal disfarçado espetáculo de descabido nacionalismo mesclado a interesses puramente comerciais.

Kafka, que morreu em 1924, legou a Max Brod, o melhor amigo, seus livros e escritos originais, com a instrução de que fossem destruídos após sua morte. Brod não honrou a vontade final do escritor. Publicou parte das obras inéditas, entre elasO Processo,O CasteloeAmerika, nos anos subsequentes. E não destruiu os originais – nem esses nem outros, quiçá ainda inéditos.

Em 1939, durante a Segunda Guerra, Brod fugiu para a Palestina e parte dos manuscritos foram parar na Biblioteca Bodleian, em Oxford. Porém outros ele conservou até a morte, em 1968, quando o legado passou a Esther Hoffe, sua secretária e amante.

Vinte anos depois, em 1988, Esther vendeu em leilão por 2 milhões de dólares os originais deO Processo. E, como Brod, conservou os demais até sua morte, ocorrida, como já vimos, em 2007, aos 101 anos de idade, a partir do que se instalou esse processo verdadeiramente kafkiano para disputar o legado de K., hoje um cidadão do mundo.

Duas filhas de Esther Hoffe, Eva e Ruth, são também parte no processo, litigando com as bibliotecas. Elas alegam não ser preciso inventariar tais documentos, cujo valor pode ser simplesmente determinado pelo peso.

Representando Eva e Ruth, um dos advogados do espólio de Hoffe esclarece:“Se chegarmos a um acordo, o material será oferecido à venda como uma única peça, num pacote. E será vendido pelo peso. Há um quilo de papéis aqui. Quem fizer a melhor oferta poderá aproximar-se e examinar o material”.

Para caracterizar-se como totalmente kafkiana, falta a esta causa apenas jamais terminar, pois o infindável é um dos atributos que hoje associamos ao adjetivo kafkiano. Esse processo, onde se disputa propriedade, naturalmente é diferente daquele do livroO Processo, onde se trata de uma culpa indefinida. No entanto, em essência, aqui vemos novamente K. esmagado pela lógica do absurdo, de um lado por instituições de longos tentáculos, de outro lado pela onipresente ambição humana. Quase 100 anos após sua morte, a vontade final de Kafka não foi cumprida.

Afinal, qual a culpa de K.?pois seu castigo segue o curso de mais esse processo.

Este caso haveria de ser um bom tema para dissertações ou teses. Não são simples as questões originadas por Kafka, na vida, na obra e, agora mais uma vez vemos, na morte.

Na raiz desta ação judicial está o fato de que a vontade final de Kafka foi desrespeitada. Mas, por outro lado, ele tornou-se imortal e a humanidade somente conhece sua obra genial pela mesma razão.

Quais são, então, a força e os limites de uma declaração de vontade final? Mais que isto: esta é uma questão filosófica, jurídica, psicológica ou de que outra ordem?


Luiz Ferri de Barros é Mestre e Doutor em Filosofia da Educação pela USP, Administrador de Empresas pela FGV, escritor e jornalista.

Publica coluna semanal no Empório do Direito às terças-feiras.

E-mail para contato: barros@velhosguerreiros.com.br.

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