Como pode o mediador lidar com o desequilíbrio de poder baseado na...

Como pode o mediador lidar com o desequilíbrio de poder baseado na violência do ter e do saber – Por Pedro Morais Martins

Por Pedro Morais Martins – 06/03/2015

Existem várias formas de questões relacionadas com o poder se manifestarem em Mediação. Lisa Parkinson (2008, 183) refere que “quando o poder é usado de uma forma agressiva para controlar outras pessoas ou para tomar posse duma parcela maior de bens ou territórios disponíveis, isto envolve um abuso de poder por uma pessoa ou grupo”.

Juan Carlos Vezzulla (2005, 45) refere que “o discurso do mediado estará tão cheio de preconceitos, ideais, ilusões e temores, que o devemos desarticular para desativar os bloqueios que impedem a emergência dos interesses reais”.

Cabe ao mediador procurar que a mediação ofereça um lugar distinto. Um espaço de partilha de informação que proporcione uma família capacitada para atender às necessidades dos elementos que a integram.

Alguns exemplos desse poder podem ser elencados do seguinte modo:

Poder exercido pela violência do ter:

– O poder económico sobre o outro que pode proporcionar um melhor conforto, uma tomada de decisão mais facilitada e o exercício de ameaça e imposição: Eu tenho dinheiro ou bens e por esse motivo sou quem está em melhores condições para proporcionar o melhor para os filhos. Este tipo de poder costuma ser exercido pelo homem sobre a mulher.

– Poder de apresentar um advogado que acompanhe presencialmente nas sessões de Mediação familiar.

Poder exercido pela violência do Saber:

– O conhecimento sobre a vida dos filhos é sinónimo de exclusividade no tratamento. O outro não está apto para cuidar do filho porque não sabe fazê-lo.

– Conhecimento das rotinas diárias da organização do lar (tarefas domésticas, culinárias)

Poder exercido pela violência Intelectual:

– Melhor capacidade para se expressar e apresentar as suas ideias. Muitas vezes acabando por desacreditar as intervenções do outro.

– Memória descritiva de diversos factos passados que servem para fortalecer ideias (se recorrermos à Escola de Harvard: para fortalecer as posições).

– Explorar as fraquezas emocionais do outro, muitas vezes recorrendo à chantagem.

– Membro do casal que promove uma lealdade afetiva dos filhos procurando uma aliança.

– O poder baseado em ter uma personalidade irritável. O outro teme o confronto para não enervar e teme a retaliação.

Poder exercido pela violência física:

– Exercido pela força ou pelo tamanho. Fortemente marcado pela sociedade. Muitas vezes utilizado como um alibi cultural, influenciando o nosso modo de estar. Alguns exemplos:

– Quando te bato, doí-me mais a mim do que a ti.

– A mulher quer-se batidinha como a sardinha.

– Bate à tua mulher. Mesmo que não saibas a razão ela sabe porque apanha.

– O homem (Adão) nasceu bom e a mulher (Eva) é que o fez ser mau.

– O antigo testamento condena a mulher a parir com dor.

– Há alguns anos atrás, o que hoje é considerada violência na família, era considerada um corretivo legítimo para a mulher e para os filhos

– Como referem Maria Emília Teixeira da Costa e Cidália Duarte (2000, 12) “A violência familiar não pode ser analisada sem ter em conta um conjunto de valores, de crenças, de estilos de vida, e do sistema sócio-político, característicos de uma determinada cultura e época”.

 Poder exercido pela violência social:

– Um dos membros do casal pertence a uma classe social mais elevada fazendo com que o outro se sinta diminuído.

– Instrumentalização de amigos para tomarem partido por um dos elementos do casal.

– Maior apoio da família alargada para o auxílio na gestão do tempo e das despesas económicas.

Como pode o Mediador auxiliar no equilíbrio do poder?

Atendendo ao limite máximo de folhas deste trabalho, limitar-me-ei a abordar o poder exercido pelo ter e pelo saber.

Técnicas utilizadas pelo mediador para equilibrar o poder exercido pelo saber:

– O mediador promove a participação simbólica dos filhos na mediação. Deve procurar promover uma partilha de conhecimento entre o casal. Fazer perguntas sobre a realidade dos filhos. Exemplificando:

– Podem falar um pouco sobre os vossos filhos?

– Referiram que o Manuel sofre de Asma. Que tipo de cuidados é habitual terem para que ele enfrente a doença?

– Se fizermos um mapa semanal com as atividades do Manuel, como seria preenchido?

– A vossa filha Mariana toca piano às terças e quintas entre as 18.30 e as 20 horas. Como é costume a família se organizar para lhe proporcionar essa oportunidade.

– Se a Mariana e o Manuel estivessem sentados naquelas cadeiras, o que pensam que eles diriam sobre a maneira como estão a pensar organizar a gestão do tempo?

– Estas intervenções dos mediadores têm o condão de levar o casal a falar da realidade dos filhos e a partilhar como é habitual terem cuidados para que eles saiam mais fortalecidos.

Técnicas utilizadas pelo mediador para equilibrar o poder exercido pelo ter:

– É muito importante que os mediados estejam na posse de informação objetiva que possa facilitar a tomada de decisões (Verificar qual o dinheiro que possuem, quanto gastam em casa, com eles e com os filhos). Evita uma discussão estéril à volta de um número. O trabalho do mediador deve levar os mediados a procurarem informação sobre qual é o valor efetivo que gastam num determinado item. Com informação sobre a mesa obtém-se o equilíbrio do poder para que as necessidades possam ser atingidas e no caso das crianças para que a sua identidade saia fortalecida.

– O Mediador deve trabalhar com formulários que devem ser preenchidos pelos mediados (anexo 1). Estes formulários vão permitir a partilha da realidade económica da família.

– Os formulários devem ser entregues para preenchimento num momento em que a relação de trabalho esteja fortalecida para que a frieza dos números não afetem o restante trabalho.

– Caso existam dúvidas sobre algum valor, o mediador pode solicitar que os mediados tragam algum comprovativo dessa despesa ou receita.

 – É muito útil o trabalho com estes formulários. Muitas famílias tomam consciência da situação dramática em que vivem do ponto de vista económico. Na maioria dos casais consegue-se promover um clima de tal modo cooperativo que é vê-los a trabalhar conjuntamente para conseguirem satisfazer as necessidades dos filhos.


Notas e Referências:

COSTA, Maria Emília Teixeira e DUARTE, Cidália – Violência Familiar. Porto: Ambar, 2000

PARKINSON, Lisa – Mediação Familiar. Lisboa: Ministério da Justiça, 2008

VEZZULLA, Juan Carlos – Mediação, Teoria e Prática. Guia para Utilizadores e Profissionais. 2.ª ed. Lisboa: Ministério da Justiça de Portugal, 2005


Anexo:

Anexo 1 Formulários Despesas


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