Como escolher amantes – escritos proibidos para pessoas feias, chatas e sérias...

Como escolher amantes – escritos proibidos para pessoas feias, chatas e sérias – Por Bartira Macedo de Miranda Santos

Por Bartira Macedo de Miranda Santos – 03/08/2015

Advertência inicial: Alguém pode, com esse texto, querer fazer uma crítica sobre “o que andam produzindo os doutores desse pais” e concluir que, às vezes, nos dedicamos a assuntos “pouco relevantes”. Ora, há uma cena no filme “legalmente loira”, em que a atriz que faz o papel de mãe da personagem principal, surpresa com a decisão da filha em cursar Direito, exclama: “Mas, minha filha, Direito é para pessoas chatas, feias e sérias”. Pois bem, se você fez Direito e se enquadra nessa descrição, esse texto não lhe é destinado. Com isso a autora de exime de responder qualquer crítica mais ou menos pertinente sobre o conteúdo que hora se apresenta por parte de pessoas chatas, feias e sérias.

Escolher amantes é uma arte. Há tempos a literatura dedica-se ao ofício de ajudar as pessoas nessa empreitada. Benjamin Franklin escreveu alguns ensaios que ficaram inéditos por quase cem anos. Estes ensaios foram reunidos sob o título Como escolher amantes e outros escritos, publicado no Brasil, em 2006, pela Editora Unesp, com tradução de Jézio Hernani Bomfim Gutierre. Os ensaios foram mantidos longe do público porque o neto de Franklin, que passou a cuidar de seus textos após a morte do autor, em 1790, achava “Como escolher amantes” tão escandaloso que não permitiu sua publicação por editores ou compiladores da obra de Franklin.

O ensaio Como escolher amantes foi escrito em 1745, e deve ser compreendido no contexto de vida do seu autor.

A imagem mais conhecida de Benjamin Franklin é a que aparece nas notas de “ONE HUNDRED DOLLARS”. A ilustração fala por si própria: o rosto não mostra nenhum traço de humor, mas se tornou o símbolo do capitalismo. É de Franklin a frase “tempo é dinheiro”. O objetivo central de sua ética era apenas “ganhar mais e mais dinheiro, com a completa rejeição de todo gozo espontâneo da vida”, ao que Max Weber denominaria de “a filosofia da avareza”. Enquanto muitos críticos julgavam Franklin como um homem cheio de máximas vis e mesquinhas, outros o idolatravam como o profeta do lucro e achavam ser ele a perfeita fonte de sabedoria sobre como progredir no mundo e de como colocar-se no caminho do sucesso[1].

O texto de Como escolher amantes pressupõe que um jovem, certamente um personagem ficcional, supostamente pedira a Franklin conselhos sobre como lidar com “violentas inclinações pessoais”. O remédio adequado, diz Franklin solenemente, seria o casamento:

“O casamento é o remédio adequado. É a mais natural condição do homem e, portanto, o estado em que mais provavelmente encontrarias sólida felicidade […] São o homem e a mulher unidos que fazem o completo ser humano […] Juntos, são mais capazes de vencer no mundo. Um homem solteiro não tem nem de longe o valor que ostenta sob o estado conjugal. Ele é um animal incompleto. Assemelha-se a uma das lâminas de uma tesoura. Caso adquiras uma esposa prudente e saudável, tua indústria em tua profissão, aliada à boa economia que tua mulher exercerá, serão suficientes para a obtenção da fortuna.”

Mas, o “jovem” insiste em não se casar e considera “inevitável o intercâmbio com o outro sexo” e, portanto, o único remédio para essas violentas inclinações é arranjar uma amante. Assim, Franklin aconselha que “em qualquer de seus trânsitos amorosos, deves preferir mulheres velhas às jovens.

O conselho parece paradoxal, mas Franklin apresenta oito razões que o sustentam, as quais dizem muito sobre o seu autor: um homem avarento, mas talentoso, culto e de humor, ora vulgar, ora refinado e que desenvolveu um tipo de escrita que o acompanhou por toda a vida, a qual às vezes o fazia afastar de seu perfil convencional. No entanto, mesmo nos momentos de escrita irônica ou pouco convencional, o autor não se afasta dos tipos de raciocínio que o faria ser conhecido como o mais autêntico símbolo do capitalismo, o que se nota pela natureza dos conselhos dados em Como escolher amantes, dando razão àqueles que o identificam como um homem que só pensa em dinheiro.

Encerrando esta resenha, eis as razões pelas quais Benjamin Franklin aconselha que para escolher amantes, o jovem deve preferir mulheres velhas às jovens:

1. Porque, por possuírem mais conhecimento do mundo, sua conversação é mais edificante e mais duradouramente agradável;

2. Porque, quando as mulheres deixam de ser formosas, procuram ser boas e compensam a diminuição da beleza com o aumento da utilidade. Aprendem a desempenhar mil tarefas, pequenas e grandes, e, caso adoeças, são mais gentis e amáveis. Portanto, difícil é existir uma mulher velha que não seja também uma boa mulher;

3. Porque não há o contratempo dos filhos que, irregularmente concebidos, podem acarretar grandes inconvenientes;

4.Porque, por serem mais experientes, são mais prudentes e discretas ao promover um caso amoroso, de modo a evitar suspeitas. O comércio com elas é mais seguro. Caso o affaire venha a ser conhecido, pessoas ponderadas tendem a desculpar uma mulher velha que, com gentileza, cuida de um homem jovem e evita que ele arruíne a sua saúde e a fortuna com prostitutas mercenárias;

5. Porque, em se cobrindo toda a parte de cima com uma cesta e considerando-se apenas aquilo que vem de baixo da cintura, é impossível que se distinga, entre duas mulheres, a velha da jovem. Além disso, como no escuro todos os gatos são pardos, o prazer ou deleite corpóreo com uma mulher velha é ao menos igual, e frequentemente superior, posto que a prática é capaz de aperfeiçoar toda destreza.

6. Porque o pecado é mais venial. A violação de uma virgem pode significar sua ruína e tornar-lhe a vida miserável;

7. Porque a compunção é menor. Tornar miserável uma jovem pode evocar-te amargas reflexões, nenhuma das quais seria associada ao ato de tornar feliz uma mulher madura;

8. Oitava e última: elas ficam tão gratas!

Enfim, o texto de Benjamin Franklin apresenta-se pouco recomendável para pessoas feias, chatas e sérias.


Notas e Referências

[1] Apresentação bibliográfica de Benjamin Franklin escrita por R. Jackson Wilson, tradução de Cláudia Sant’ana Martins. In: FRANKLIN, Benjamin. Como escolher amantes e outros escritos. São Paulo: Unesp, 2006. p. 7-29.

Resenha de:

FLANKLIN, Benjamin. Como escolher amantes e outros escritos. São Paulo: Unesp, 2006.


Bartira

Bartira Macedo de Miranda Santos é professora de Direito Penal e Direito Processual Penal da Universidade Federal de Goiás, é Pós-doutoranda pela PUC-GO e bolsista Capes. Autora do livro Defesa Social: uma visão crítica, 2015, pela Coleção Para Entender Direito (www.paraendetenderdireito.com.br).

 

 


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