Clichê – Por Bernardo Gomes Barbosa Nogueira

Clichê – Por Bernardo Gomes Barbosa Nogueira

Por Bernardo Gomes Barbosa Nogueira – 13/05/2016

Platão em seu Banquete já dialogava sobre o problema que assola todo o imaginário ocidental. A questão do amor. Desde o momento que os andróginos tiveram sua metade ceifada pelos deuses, como paga à sua arrogância, os humanos se encontram no a-caminho da busca por essa outra parte. A solidão da procura seria encerrada quando houvesse o encontro. O olhar talvez seja o primeiro a responder por esse apelo. Isso é uma intuição nossa apenas. Ademais, pelo olhar adentra aquilo que queremos ver, mas também algo que nos escapa enquanto razão. Essa centelha sorrateira talvez seja o embrião do que adiante querer-se-á chamar amor.

Esse pequeno intróito talvez sirva como maneira de espiar a falha que hei de cometer. Pois, de todos os comentários que lemos acerca de “Anna karênina”, filme baseado na obra de Tolstói, com direção de Julien Duvivier, insistem em dizer que não há que se reduzir a obra à questão do amor e do adultério que envolve o oficial Vrónski (Kieron Moore), Anna Karênina (Vivien Leigh) e Karênin (Ralph Richardson). Realmente não podemos incorrer no despropósito que reduz algo extremamente complexo como é o amor. De alguma maneira o problema a se desvendar na história do ocidente seja este, e se acaso um dia houver quem desvende, não terá encontrado o amor, figura por si só arredia às expectativas racionais.

É bem explícito o confronto entre a liberdade de amar querida pelo próprio amor, e ao mesmo tempo, a enfermidade da adequação social. Seria este o eterno conflito a que os amantes se entregam? Não nos parece que os binômios dêem conta do emaranhado de relações que compreende um olhar apaixonado. Dizemos isso pois, o filme também poderia nos fazer questionar se, de fato, a liberdade suprema seria realmente retirar a própria vida? Teria Camus encontrado o duplo do amor, a morte? Camões já cantava esse fogo que arde. Ainda assim, o outro que é interpelado pelo olhar de quem ama: estaria ele ali naquele momento apriosinado pelo olhar do amante, e, logo, no amor não haveria liberdade? Liberdade seria “O AMOR” proposto por Beavouir e Sartre e que desafiava amores fugazes? A figura do trilho e do trem indicaria que o amor estaria nessa brevidade e indecisão das estações, que não sabem se chegam ou se estão a partir?

Falamos aqui que o amor seria o problema do ocidente. Parece-nos que chegamos a uma encruzilhada, ora, percebemos que ao lançarmo-nos à busca destas respostas, a impressão que se tem é que possuímos armas para um combate que é já outro. Explico-me: não estaria o ocidente com olhos fechados para esta questão? Ora, pensar o amor dentro de quaisquer conceituações, não seria uma tarefa perdida? O olhar, como dissemos, leva embora essa possibilidade. O que é inevitável! Ao que for evitável, as instituições, que podem ser evitadas, desmarcadas, desmascaradas, o amor não. Igual resfriado, não se esconde, diria o popular.

Assim, de erro em acerto, e não também, vive-se essa incerteza. Pois se algo esta ali no amor, é sua imprecisão, seus perigos, limites e tragédias. Na película, há ainda um outro charme que é quando os amantes criam seu tempo. Aliás, essa alteridade exercida ao amar é responsável por desvendar-se outro enigma. Ora, se perguntarmos para os amantes o que é o tempo, não responderia o oficial pelos problemas que a Rússia atravessava, tampouco a esposa adúltera diria das questões sociais. Este universo que é o do amor também se dá como composição. Composição do tempo, o dos amantes que nasceram quando o olhar dum capta o olhar d’outro, inevitavelmente.

Quanto clichê extraído da enorme obra em questão! “Todas as cartas de amor são ridículas”. Assim como morrer por amor também deve o ser. Assim como não morrer também é. Entre o mito do amor, por entre a sociedade russa e suas pompas e suas circunstâncias criadas e por entre o tempo, depois do último silvo do trem, restou Anna. Heroína trágica ou amante desvairada? Humana, por certo. Se haveria mais que dizer sobre o filme meus olhos não me deixaram. O amor já os havia furtado lá pelas primeiras cenas.


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Bernardo Gomes Barbosa Nogueira é Doutorando em Teoria do Direito pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais; Mestre em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Especialização em Filosofia pela Universidade Federal de Ouro Preto. Professor da Escola de Direito do Centro Universitário Newton Paiva.
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