Cada mulher é um mundo – Por Bernardo Gomes Barbosa Nogueira

Cada mulher é um mundo – Por Bernardo Gomes Barbosa Nogueira

Por Bernardo Gomes Barbosa Nogueira – 20/05/2016

O amante da rainha” é uma narrativa que deve ser apreciada com todos os gostos de todos os orvalhos nascidos e aqueles que estão por vir. O filme é uma ode ao que esta por vir. Iremos explicar o fundamento desses dizeres. O diretor Nikolaj Arcel acompanhou as tramas que se enquadram em um modelo que já fora encenado diversas vezes no cinema, bem como, estrutura de diversos romances. Uma jovem que é obrigada a se casar com um rei desprovido de qualidades que o façam merecê-la e que se apaixonará pela poesia de um terceiro que se coloca como a fantasia que a instituição na qual é forçada a viver destrói.

Em que pese a característica comum da estrutura do filme, há um elemento que torna mais interessante todo a história. Tudo ali esta a retratar um momento real da história da Dinamarca e sua relação com os ideais iluministas. Assim, ao entrarmos no clima das ótimas fotografias e das atuações bem conseguidas do triunvirato que compõe o corpo principal do filme acabam por nos trazer grandes reflexões.

O filme mostra em boa medida os ideais revolucionários do iluminismo, mas acima de tudo, é um embate entre o eros revolucionário e a fé que queria manter nas mãos da igreja um poder que estava ameaçado por este novo que surgia. A narrativa oscila entre o conservadorismo, o desejo, a poesia do iluminismo e seu abismo desconhecido e a luta pelo poder, tudo isso acompanhado por uma aura de amor que conduz com toda intensidade a revolução que se anuncia em uma Dinamarca dantes dominada pela igreja e ornada de falsidades por todas as partes.

O desejo que realiza a existência do humano e o faz transcender e criar a história foi o que realizou a revolução na vida da corte dinamarquesa. Um rei com problemas mentais destina sua loucura para a revolução de si e de seu reino. Um médico que trouxera na bagagem ações e pensamentos libertários realiza a fantasia amorosa da rainha.

A rainha, belíssima, mostra a força do feminino que desde sempre na história do mundo ocidental faz ruir as estruturas mais precisas. Na verdade a revolução estava a ferver dentro dos olhos e das fantasias da rainha. Foi ela que catapultou o médico a insuflar os atos do rei maluco. Com sua leveza e amor, fez nascer a revolução nos corações dos homens que eram, em verdade, os braços a realizar os sentimentos da jovem rainha. O filme realmente poderia ser mais uma história de um amor que fora suplantado pelo poder, pois um golpe condena o médico revolucionário à morte, o rei à loucura e a Dinamarca a uma volta à era que antecedeu esse início de um novo tempo.

Contudo, como havíamos advertido, o futuro do reino estava intimamente ligado à rebeldia poética do amor revolucionário da rainha com o médico iluminista. A revolução e o amor providenciaram a construção de um novo tempo. Assim, a filha bastarda do reino, ao receber a carta da mãe exilada, une forças com seu irmão e ao já velho e atormentado pai, e retomam o poder instaurando na Dinamarca os ideais libertários que a mãe havia um dia sonhado.

A rainha, desejosa do amor, do futuro, do incerto e da libertação, trouxera em seu ventre o embrião que libertaria o reino da escravidão das trevas impostas pela igreja e por uma monarquia que repudiava a alteridade. O amor, o desejo e a revolução foram os fundamentos que criaram um novo tempo. E esse novo tempo sempre traz tragédias. Não há amor sem tragédia. Não haverá tempo novo sem que haja parto. Só as mulheres saberão como dói o parto. Mas só elas também sabem como contar a história do mundo a partir de seus olhos. A partir de seus desejos próprios. A partir de seu mundo. Que agora é seu e de todo resto de mundo, seu.


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Bernardo Gomes Barbosa Nogueira é Doutorando em Teoria do Direito pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais; Mestre em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Especialização em Filosofia pela Universidade Federal de Ouro Preto. Professor da Escola de Direito do Centro Universitário Newton Paiva.
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