Assim fala um comunista – Por Bernardo Gomes Barbosa Nogueira

Assim fala um comunista – Por Bernardo Gomes Barbosa Nogueira

Por Bernardo Gomes Barbosa Nogueira – 06/05/2016

O filme “Anos Incríveis” de Michel Lecrerc poderia ser considerado um filme simples. Simples por retratar uma união de pessoas que possuem uma emissora de tv alternativa e lutam contra a hegemonia do espetáculo vazio que estrutura a mídia de massa na contemporaneidade. Lutam, portanto, contra a ausência de patrocinadores, falta de espectadores interessados em questões humanas e sem holofotes. Tornam a rua seu próprio cenário e de alguma maneira tentam erguer autenticidade no existir falacioso interpretado nos programas diários de uma televisão que atravessa a humanidade feito um fantasma que arrasta correntes dentro de um casarão solitário. Sorrateiro e mortal. Inventado.

Seria, portanto, um cenário simples. Militantes de um pensamento libertário frente à mídia reacionária que inventa uma liberdade enquanto aprisiona as escolhas. Desde já um roteiro acabado e porque não dizer linear. Ora, enfim, o capital que move a orbe dentro do kosmos hoje houvera por vencer a batalha e a ausência de know-how dos militantes, como a fortuna de Maquiavel, os encaminharia para a ruína. “Sempre o mais do mesmo”. Artistas frustrados perseguindo um oasis que eles mesmos querem destruir. Paradoxalmente querem acabar com a fraude pelos próprios meios. Destronar um canal hegemônico querendo se passar por ele. A fantasmagoria apenas mudaria de esquete?

Esse é o antigo problema dos paradigmas ideológicos, pois, quer-se destruir uma estrutura construindo outra, que por sua vez será considerada hegemônica e condenada a ser perseguida. Seria uma condenação tal qual a de Sísifo essa que quer mudar o paradigma ideológico em vigor? O humano estaria condenado a este pensamento binário: positivo/negativo, ontem/hoje, homem/mulher?

Seria realmente simples se realmente a tarefa do humano não estivesse, desde seu aparecimento, pautada pela inventividade e pela sua incompletude. Estar no mundo é espacializar-se, e esse existir, que é sempre um existir conjunto, impede a linearidade, há amor e há não amor. Há também o que oscila, há a oscilação que é o entre. O que não se diz e o que será dito. Dentro desse tempo que não é o de ontem e nem é o de hoje, há, como diria Caetano Veloso: “os sonhos que os comunistas guardam”. Dentro dessa esfera de possibilidades, saímos das amarras binárias do sim e do não, da armadilha do hegemônico  e do contra-hegemônico, pois negar demais é reforçar o seu oposto.

Assim, seria um filme simples se no entremeio daqueles jovens revolucionários não aparecesse a imprevisão de Clara (Sara Forestier) que seria o elo entre o que seria simples e previsível em uma luta ideológica e o que na verdade é necessário para a construção daquele que vem, ou seja: ela encena o inesperado, o evento, o ocaso e o amor. Elementos que figuram como aportes para essa passagem, pois em verdade, não se trata de criar outra emissora que possa transmitir em simultâneo e disputar a atenção das mulheres e homens. Não. Em absoluto. Tanto que no filme essa é uma alternativa que nunca é exitosa.

O que resta dessa película, que não é em nada simples, seria mesmo a ideia de que essa troca de paradigmas apenas aumenta uma constatação a priori de um estado belicoso de tentativa de poder. Parece-nos que haveria maior autenticidade no existir, na medida em que houvesse inventividade. Na exata proporção da fresta, do rastro, como nos diria Derrida. Naquele local em que temos a precisão de que não é possível prever e naquele momento em que um olhar alterna nossa freqüência, e assim, hay que endurecerse pero sin perder la ternura.


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Bernardo Gomes Barbosa Nogueira é Doutorando em Teoria do Direito pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais; Mestre em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Especialização em Filosofia pela Universidade Federal de Ouro Preto. Professor da Escola de Direito do Centro Universitário Newton Paiva.
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Imagem Ilustrativa do Post: Divulgação // Sem alterações

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