“Amar e mudar as coisas” – Por Bernardo Gomes Barbosa Nogueira

“Amar e mudar as coisas” – Por Bernardo Gomes Barbosa Nogueira

Por Bernardo Gomes Barbosa Nogueira – 15/04/2016

Antes do pôr-do-sol” é um filme que nos diz sobre o tempo. Os encontros e o inverso deles. Todos estes tempos que conjugam nosso espaço e constituem as ruas que cruzamos, as que estão por cruzar e aquelas que haveríamos de cruzar, só que a esquina solitária não nos deixou passar.

Em Paris, cenário que encanta mesmo sem vivê-la. Paris ao entardecer mostra um cenário de uma vida que começou, caminha, ri e chora. Fantasiando a vida real e tornando todos tic-tacs providos de algum sentido. O rumo não importa tanto. Por vezes em Paris parece que o tempo é diferente. Sobretudo se olhares estiverem envoltos pelo amor. Paris e o amor são namorados. Jesse e Celine encontram ali um bom local pra dizer de suas estradas. Das que cruzaram e das que não. Vinícius de Moraes diria que “a vida é a arte do encontro, apesar de tantos desencontros”. Diria também “que a vida é pra valer”. É sobre isso que o filme “Antes do pôr-do-sol” trata.

A narrativa retoma o Kairos que houvera em Viena em “Antes do amanhecer”. Traz novamente um momento em que os dois jovens, marcados pelos contornos de algum tempo passado após aquela noite, revivem algumas experiências vividas naquele tempo que foi deles e de mais ninguém, afora a poesia, a cidade de Viena e o amor. É um filme que a música de Vinícius cantaria bem.

De novo os jovens dialogam acerca das vicissitudes do cotidiano, que por vezes nos torna tão iguais que nos perdemos de nós mesmos. Os jovens não deixaram com que as formalidades do primeiro encontro tomassem lugar da inediticidade que fora aquela noite. Talvez por isso não tenham se reencontrado como planejado no primeiro filme. Esse seria o mote que conduz o filme. Ou seja, a escolha sempre é o momento trágico que denota nossa humanidade. Nossa tragédia é constituída exatamente por esse momento. Os deuses invejariam nossa dubiedade face ao tempo que vem.

Os diálogos que constituem a trama são simples na medida em que também é simples a percepção de nossa finitude. As escolhas são feitas, impelidas por fatores que nos circundam, que as vezes saltam a nossas intenções e afirmam sobre nossos olhares o quão expostos estamos à torrente do tempo. É como aquela figura que vivenciamos quando tentamos segurar nas mãos um tanto de areia. Ela se esvai. A vida dos dois então poderia ser mostrada nessa figura. E essa tragédia é o que caminha ao lado dos dois em Paris.

Jesse escreve um livro sobre a noite. Celine compõe uma canção. Cada um desesperadamente tentando segurar sua centelha de tempo. Impossível para os humanos. Possível aos deuses. Logo, apenas artisticamente essa duração fora possível. As escolhas de cada um navegam pelas lembranças. Elas agora são o que resta de uma noite inesquecível. Viver de lembranças e se amargurar? Resignar-se e simplesmente tocar a vida?

“Todo mundo ama um dia,todo mundo chora, um dia a gente chega, no outro vai embora” O violeiro do pantanal junto do poetinha entenderam bem a relação do filme entre Jesse e Celine. Apenas a arte resta quando os cacos do passado teimam em se colocar entre nosso presente. Cada rua que cruzamos é uma que não iremos cruzar. Cada escolha feita é sempre um mar de rosas que iremos pisar, e outra que iremos cheirar.

Assim, entre cheiros sentidos.  Entre promessas não cumpridas e estradas percorridas estamos a escrever nossa história. Como ela será contada, é o que nos resta. Os gregos sempre nos ensinaram a viver a vida como obra de arte. Celine e Jesse em Paris contaram sua história em Viena. Desencontraram da hipótese de contar juntos e institucionalmente a história. Encontraram artisticamente ao contar suas histórias separados. Cada um em sua rua. Os dois no mesmo tom.


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Bernardo Gomes Barbosa Nogueira é Doutorando em Teoria do Direito pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais; Mestre em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Especialização em Filosofia pela Universidade Federal de Ouro Preto. Professor da Escola de Direito do Centro Universitário Newton Paiva.
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Disponível em: http://setimacena.com/criticas/antes-da-meia-noite


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