Amar é inventar? – Por Bernardo Gomes Barbosa Nogueira

Amar é inventar? – Por Bernardo Gomes Barbosa Nogueira

Por Bernardo Gomes Barbosa Nogueira – 24/06/2016

Começar a escrever sobre um filme que fora intitulado Her é já tarefa difícil. Temos uma construção da linguagem que por si só mostra-se discriminatória, machista. Assim, por essa via já podemos perceber que o amor, em forma de uma voz de um programa de computador – mote principal do filme – é já uma mostração do que estamos a dizer. O mercado, claro, vale-se dessa concepção e acaba por tornar mercadoria aquilo que construiu como forma de encobrimento a uma determinação ideologia: a existência feminina. E ainda na sanha de uma sociedade ornada em preconceitos, pergunta-se: o amor pela máquina não poderia ser homo? Há gênero no amor? Apaixonar-se estaria “ligado” a uma ou outra determinação? Em outra via de questionamento: é amor aquele que supera a questão física?  Estaria o autor a encenar um ideário antigo acerca do amor platônico? Ou ainda, o amor às máquinas estaria para o amor entre humanos, assim como o arquétipo estaria para a sua cópia? Descobrimos a ideia de amor ou acabamos por destruí-la quando ela perde seu componente trágico? Amar seria, portanto, tragédia?

O filme em questão nos remete a várias questões que tomam o imaginário na contemporaneidade. Desde percebermos um mundo espetacular que se mistura, forma e conforma aquilo que um dia se chamou real, até um imaginário de que as frustrações do humano podem ser resolvidas em uma loja de artigos virtuais.

Assim, quando vemos o personagem, Theodore (Joaquin Phoenix), um escritor frustrado que trabalha em uma agência que cria cartas pessoais, podemos enxergar uma boa dose desse cenário que hoje vivemos. Ele escreve cartas para terceiros, na onda dos ghost writers, de alguma maneira experiencia isso tudo, e ai iniciam as questões: os poetas apenas fingem? Fingem e como disse Vinícius, acreditam que é dor a aquela inventada? Ou de outro lado, a questão do mercado toma inclusive a mais doce palavra e o escritor ali em nada participa? As pessoas que recebem e que enviam se relacionam pela nuvem, aquela de palavras inventadas por outros, que por certo tornar-se-ão repetidas enquanto estiverem encenando um ato de amor na cama, ou em outro lugar. Realizando-se em um ato que não passaria de lo individual, para dizer comLacan sobre a inexistência do ato sexual. Nesse sentido, se estas pessoas que compram as cartas, não vivenciam o momento da criação, não sentem a poesia da invenção que é amor, estaria o filme Her a encerrar a possibilidade do amor? Ou estaria a inventar uma nova forma de amar, a comprada?

Por outro lado, e como não pode ser diferente. A película nos transporta para uma outra dimensão acerca do mesmo assunto. Ora, enquanto Theodore namora com a voz de Samantha (Scarlett Johansson), carrega sua voz para passear, beber e dançar, percebemos ai que o tempo do amor é avesso às dimensões lineares da existência. Haveria um local e um tempo para o amor? Pois se pensarmos nessa perspectiva o filme ao mesmo tempo em que nos avisa para o fim do amor, anuncia também a idéia de que ele é avesso aos padrões e sem importar se homo ou hetero, presencial ou não, é amor enquanto é vivido, sem lugar e em todos os lugares. Lembra-nos uma canção tão mineira: “qualquer maneira de amor vale a pena…”. Seria então o amor essa tragédia que nos faz rir, chorar e depois devolve-nos cândidos para o seio de nossa finitude incontornável?

Quando a máquina enfim, responde ao seu namorado que se relaciona com outrasmilhares de pessoas, como não pensar na possibilidade de uma crítica ao amor cristão que nos obriga a uma pessoa? É possível viver o amor assim? Seria uma expressão tecnológica do poliamor? A diversidade teria espaço em nosso coração tão afeito à posses?

O filme é mais do que podemos escrever. Mostra nossa carência. Nossa solidão em meio às multidões, mostra que estamos em crise. Mostra como Bauman que as relações se tornaram líquidas, que um botão finda o relacionamento. Mas mostrou também que o amor está por ai, definitivamente em todos os lugares, sem espaço e tempo. Como sói acontecer a deuses. Quem for humano que saiba inventar o seu…


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Bernardo Gomes Barbosa Nogueira é Doutorando em Teoria do Direito pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais; Mestre em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Especialização em Filosofia pela Universidade Federal de Ouro Preto. Professor da Escola de Direito do Centro Universitário Newton Paiva.
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Imagem Ilustrativa do Post: Divulgação // Sem alterações

Disponível em: https://cinemaemovimentoblog.wordpress.com/2014/02/13/modernidade-liquida


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