“Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais” – Por Bernardo...

“Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais” – Por Bernardo Gomes Barbosa Nogueira

Por Bernardo Gomes Barbosa Nogueira – 17/06/2016

“12 anos de escravidão”. Seria possível medir o tempo da/na escravidão? Haveria, de fato, percepção possível desse tempo? Quem conta a história? Há em relações assim mais de uma história? Estar oprimido dessa maneira é viver? Resistir e morrer? Aceitar o jugo e ser premiado com a “vida”? Seria ainda vida esse prêmio? É vida aquela que fere de morte seus coirmãos e à noite recebe uma lasca de pão? Há quantas anda o teatro da vida contemporânea? Temos ainda dominantes e dominados ou vivem-se tempos democráticos em que a igualdade é garantida por uma lei constitucional?

É hora de iniciar a fala sobre o filme em questão: “12 anos de escravidão” de Steve McQueen, pois não poderia responder a todas estas questões. As respostas por vezes são apenas uma fuga da dor do pensar. Refletir realmente causa dor. Por vezes diria que o serviço do filósofo é sentir dor. Talvez como um poeta que rasga a carne para brotar seus versos. O diretor negro feriu sua pele, jorrou sangue. De parto natural nasceu seu filho. Os negros talvez possam expiar um pouco da violência que lhes foi cometida. Mas que não sejamos ingênuos. Os campos de concentração apenas mudaram de nome.

Mais que denunciar os seqüestros de negros libertos que um dos lados do solo norte-americano realizou durante o conflito pela abolição, o filme nos indica a necessidade de perceber que para além destes seqüestros cometidos, nos dias atuais, ainda podemos presenciar seqüestros: não de negros, mas do tempo, da possibilidade de construção de sentido que distingue o humano, o furto da possibilidade de transcender e criar, de ser arte, de não ter medo.

Assim, o tema do filme nos catapulta para os dias atuais em que as pessoas, livres constitucionalmente, dançam a música que é entoada repetidamente até que se torne parte da realidade. Há um furto da liberdade na medida em que nos emprestam a possibilidade de escolha pré-determinada. Por ai se vão rios de tinta para tentar explicar que não somos livres. Que do mesmo modo que o negro foi privado de sua história durante a escravidão, nós, atualmente, podemos perceber nossa prisão enquanto não nos desgrudamos da idéia de escolher. Pois que até escolher não escolher, é já escolha. Onde restaria a invenção? Assim, como reagir à condição de escravo que é pintada como inevitável? Não há vida além do capitalismo financeiro, não há outra estrutura possível. Esses ditos são anunciados pelos “bons homens” que sustentam o ciclo vicioso da liberdade que não existe. Pois, os senhores de escravo de hoje garantem o direito ao consumo desenfreado. Sejamos aprisionados, mas que tenhamos a liberdade para sê-lo! Nada obrigado. O senhor de escravo está ali, pronto para garantir ao consumidor seu pleno direito ao consumo. Sem que seja explorado.

Assim, o escravo que gravita entre seus coirmãos e o chefe é uma peça fundamental para manter a roda girando. Se acaso ele reage a estrutura desaba. Penso que ai se encontra um ponto sério a ser enfrentado no filme.  A estrutura que mantém as pessoas em seus lugares. Nesse sentido, podemos pensar com Zizek quando fala de violência objetiva. Que seria essa violência causada pela estrutura pré-concebida que condena, a priori, o destino das pessoas. Não há que combater o senhor de escravo, mas sim, a possibilidade mesma de sua existência. A possibilidade de ser autônomo, esclarecido, na esteira de I. Kant em seu opúsculo “O que é esclarecimento?”, talvez pudesse nos ajudar nessa tarefa.   Enquanto não há um agir autônomo, há menoridade, e haverá escravidão. Não há história quando não há rosto. Não há humano quando não há resistência. Não há, portanto, liberdade, enquanto há mortes que sustentam nosso delírio. As migalhas que o senhor de escravo recebe são o alimento da escravidão. O salário de quem mantém as condições de hierarquia financeira no capitalismo tem o mesmo peso e cheiro de sangue que escorre no tronco das diferenças sociais contemporâneas.


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Bernardo Gomes Barbosa Nogueira é Doutorando em Teoria do Direito pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais; Mestre em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Especialização em Filosofia pela Universidade Federal de Ouro Preto. Professor da Escola de Direito do Centro Universitário Newton Paiva.
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Disponível em: http://noo.com.br/noo-cinema-12-years-slave


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