Ah, o tempo… – Por Bernardo Gomes Barbosa Nogueira

Ah, o tempo… – Por Bernardo Gomes Barbosa Nogueira

 Por Bernardo Gomes Barbosa Nogueira – 08/04/2016

“Antes do amanhecer” é um filme que nos diz sobre o tempo. O termo grego kairos nos indica aquele momento preciso em que confluem várias circunstâncias favoráveis. Esse conjunto de benesses é o que faz acontecer o que se chama Kairos. Uma união de fatores temporais, emocionais, circunstanciais. Seria aquilo que se explica quando dizemos que isso ou aquilo não poderia acontecer novamente. Coisas de olhar. Coisas de cheiros. Coisas de saudade. Coisas de amor.

O ocaso namora o Kairos. Esse romance nos diz da necessidade do outro para existirmos. O ocaso seria o existencial que possibilita a existência do Kairos. Para Jesse e Celine o ocaso se mostra dentro de um trem no qual se encontram, e a partir de um conversa amistosa Celine aceita o convite para passar um dia em Viena. Daí em diante, os conflitos existenciais são explorados de maneira dialógica passando por um cenário encantador que é a cidade de Viena.

É interessante perceber que o encontro dos jovens acontece entremeado à liberdade como os dois se dão um ao outro. Não há, em verdade, um apelo para que a relação iniciada seja da ordem do amor sexual, mesmo que isso seja revelado por Celine. No entanto, o que nos encanta nesse filme é exatamente a imprevisibilidade, que chamamos ocaso, a paisagem, que é Viena, e os olhares sensíveis que se permitem ao que vem, mesmo sem saber. Assim, sem saber do próximo passo, sem estar preso ao compasso, sem que a agenda seja consultada. Aliás, é uma atitude rebelde existir dentro do romantismo. Logo agora, em tempos que tudo está conformado – espaço e tempo, existenciais que nos permitem estar no mundo, ou o que nos sufoca.

Parece que esse alheamento inicial das crianças perante as formas esteve em companhia do casal a deambular por Viena e contribui para o amor. Estar alheio e distraído a profanar, nos termos de Badiou, é o que circunda aqueles passos. De Paris pra Viena até encontrar com um poeta que vendia poesia. Vendedor de sonhos. Sonho que a distração dos jovens fazia virar realidade.

A realidade é o outro ponto que gostaríamos de dizer acerca do filme. A idéia de estar enamorado seria a possibilidade de uma fuga desse aprisionamento ideológico que vivemos? Os jovens sempre se interpelavam mutuamente sobre se aquilo não seria apenas uma fantasia fugaz e fadada ao fim. É evidente que um encontro entre um norte-americano e uma francesa em um trem rumo a Viena não seria o roteiro mais bem conseguido para um relacionamento duradouro. No entanto, o que se discute aqui não é esse tempo cronológico com que se medem bodas. O evento, o Kairos, que nos empurra ao abismo da infância é o que move essa relação – e o amor, nasce e morre com o próximo amanhecer? Ou o amor só é quando dura no tempo?

Parece que a realidade não há, portanto, o que de real existe é o que de amor incutimos em nossas miradas, ou o que não incutimos. Assim, se em acordo com o tempo, o casal estaria mesmo condenado a se perder, se considerarmos o tempo próprio do amor, não. E não estamos aqui a dizer daquele amor do romantismo em que aprisionamos o outro em nossas fantasias eternas. Parece que é amor quando é invenção. Dai que de amor em amor, inventamos, e de invenção em invenção, amamos.

A duração medida nessa forma do existir não se pode medrar pela passagem do sol pelo céu. A duração nesse caso estaria aliada à demora no olhar, ao toque na pele, ao instante em que distraidamente nos apaixonamos. As conseqüências de um alheamento desses sempre vêm na medida da tragédia humana. Pode ser que não mais nos vejamos. Pode ser, no entanto, que o tempo, “senhor de destinos”, contabilize muitos anos de vida. Mas pode ser que nenhum amanhecer seja cúmplice de um tempo único, Kairos.


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Bernardo Gomes Barbosa Nogueira é Doutorando em Teoria do Direito pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais; Mestre em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Especialização em Filosofia pela Universidade Federal de Ouro Preto. Professor da Escola de Direito do Centro Universitário Newton Paiva.
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Imagem Ilustrativa do Post: Divulgação // Sem alterações

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