Cinema: Advogado do Diabo – Por Luiz Ferri de Barros

Cinema: Advogado do Diabo – Por Luiz Ferri de Barros

Por Luiz Ferri de Barros – 10/05/2016

Advogado do Diabo, produção de 1997, é mais que um filme de tribunal. Dirigido por Taylor Hackford e estrelado por Al Pacino e Keanu Reeves, a história mescla drama e suspense em altas doses, cumprindo bem a função de entretenimento, ao mesmo tempo em que oferece farto material para reflexão.

A começar pelo próprio título cujo significado é literal, contrariando os usos metafóricos correntes da expressão “advogado do diabo”. Nesse caso, trata-se do diabo em pessoa que, em seus planos de dominação do mundo e da humanidade, assume a profissão de advogado e monta uma poderosa firma de advocacia.

Esse advogado diabólico, interpretado magistralmente por Al Pacino, acredita ser mais coerente que Deus, declara-se o último dos humanistas e é fã do livre-arbítrio, a ilusão de liberdade que os homens acalentam e que os conduz à perdição.

Descontados os aspectos sobrenaturais da narrativa e as peculiaridades desse demônio carismático, a trama não seria original: trata-se da velha história de um jovem advogado brilhante de uma pequena cidade que é contratado por uma poderosa firma internacional de advocacia de Nova York, onde, ao começar a trabalhar, se enredará nas malhas de insuperáveis forças do mal.

O ambicioso jovem advogado dessa história, Keanu Reeves, fora recrutado pela grande firma por nunca ter perdido uma causa criminal, não importava o crime, o que conseguia por conta, principalmente, de seu raro e misterioso talento na escolha dos jurados.

Assim, são muitas as vertentes do filme, entre elas a luta entre o bem e o mal; uma reflexão sobre o livre-arbítrio; o direito e as instituições jurídicas como o centro do mundo; os conflitos éticos da profissão; e também, com destaque, o sacrifício do amor e da vida pessoal para suprir a ambição profissional, o que é retratado pelo abandono a que o jovem advogado relega sua linda esposa, gerando consequências dramáticas.

O diretor usa efeitos especiais de forma econômica e eficaz, privilegiando a deformação de imagens, em geral em cenas rápidas que servem a pontuar os aspectos sobrenaturais da narrativa. Há no filme passagens violentas e chocantes, porém nada que nos dias de hoje não seja trivial nas telas de cinema e TV.

No roteiro, destaca-se o uso de uma figura de linguagem e técnica narrativa rara, o flashforward, ou prolepse, que corresponde ao inverso do que é um flashback, ou analepse. A maior parte do filme é uma projeção ao futuro, a antevisão do jovem advogado a respeito de como seria sua vida caso seguisse pela senda inescrupulosa até então percorrida. Após o confronto final do jovem com o diabo, no futuro, a narrativa corta novamente para o presente, onde testemunharemos, afinal, o papel e o significado do livre-arbítrio nessa intrigante história.


Originalmente publicado na Revista da CAASP/OAB. Ano 3. Nº 14. São Paulo, dezembro de 2014.


Luiz Ferri de Barros é Mestre e Doutor em Filosofia da Educação pela USP, Administrador de Empresas pela FGV, escritor e jornalista.

Publica coluna semanal no Empório do Direito às terças-feiras.                                        

E-mail para contato: barros@velhosguerreiros.com.br.


Imagem Ilustrativa do Post: THE DEVIL’S ADVOCATE … // Foto de: Bill Strain // Sem alterações

Disponível em: https://www.flickr.com/photos/billstrain/4727529847

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