Advocacia Criminal: entre morrer de sede e morrer afogado! – Por Jader...

Advocacia Criminal: entre morrer de sede e morrer afogado! – Por Jader Marques

Por Jader Marques – 31/07/2017

Fiquei realmente muito feliz com a repercussão do texto sobre NUNCA DESISTIR da advocacia criminal. Agradeço aos amigos que mandaram mensagem e reforço aos que se identificaram com o texto, que o segredo mais simples (talvez, por isso, o mais difícil) é seguir em frente, contra os obstáculos, contra os conselhos, contra tudo e contra todos.[1]

Quero aproveitar o embalo e seguir na mesma batida, falando de advocacia.

Pois bem. Depois de um tiro de 10km sofrido com meu amigo Wilson Mattos, encontrei outro amigo, Pedro Barcellos, que é dono de um dos melhores e mais movimentados restaurantes de Porto Alegre. Na conversa com Pedro, queixamo-nos do stress da profissão, da correria, da falta de tempo para o esporte, essas coisas que a gente vive reclamando.

Falei ao meu amigo sobre uma experiência vivida no Curso de Imersão em Advocacia Artesanal da Escola de Criminalistas, realizado em junho, no Hotel Samuara, cidade de Caxias do Sul/RS e que contou com 70 participantes. Dentre as mais de 15 vivências do final de semana, relatei ao Pedro sobre a dinâmica do “sorriso forçado”. A vivência foi aplicada pelo amigo José Pedro Vianna Zereu[2] (Escola das Emoções) e consiste em, simplesmente, aplicar no próprio rosto o sorriso mais forçado que a musculatura facial suportar, o que foi solicitado depois de algumas técnicas de respiração e relaxamento.

Ao fazer o sorriso forçado, a maioria das pessoas acaba sorrindo, gargalhando até. Segundo estudos citados pelo José Pedro, todas elas, sem exceção, mandam um sinal ao cérebro de que algo bom está acontecendo ou vai acontecer, enfim, parece ser possível “enganar” o córtex com essa manobra de mostrar bem os dentes, num simulacro de sorriso gigante. De fato, o José Pedro arrancou muitas risadas do pessoal com a dinâmica aplicada.

E era exatamente isso que eu falava ao Pedro do restaurante: quantas vezes nós estamos fazendo aquilo que decidimos fazer, que lutamos para conseguir fazer, que nos sustenta, que nos anima, que é a realização dos nossos desejos infantis (no caso dos advogados: de lutar pela justiça, de defender os desvalidos, de falar por quem não pode falar), enfim, quantas vezes sentimo-nos entristecidos, mesmo estando a fazer o que fazemos todos os dias. Pedro, no seu ramo de atividade, também estava vivendo essa situação.

A advocacia criminal é difícil. Lidamos com situações extremas, com perda de liberdade, com perda de direitos, com perda da vida. A pressão é algo que faz parte da vida do criminalista. De um lado, a expectativa do acusado e de seus familiares pela absolvição; do outro, a raiva, o ódio e a incompreensão de quem perdeu, de quem foi vítima, de quem sofre. O criminalista é cobrado pelos outros a todo tempo, em todas as suas iniciativas e em todos os seus movimentos. Mas é o próprio advogado quem costuma ser o seu maior algoz, porque tem o ônus de decidir e a obrigação de não errar. A cobrança é muito grande e o advogado torna-se o carrasco de si mesmo.

O advogado necessita ser o melhor. Melhor do que o melhor.

A cada vitória nos tribunais, a cada concessão de liminar, a cada absolvição perante o júri, o jogador vai ficando mais confiante e mais ousado, querendo, cada vez mais, obter novos êxitos e novas decisões favoráveis. Aquilo que era apenas advogar vai se tornando uma obrigação de ter vitórias nos processos, notadamente com a popularidade que o sucesso traz para o advogado vencedor. Uma decisão favorável, em algum caso de repercussão e que seja do interesse de outros acusados, costuma espalhar-se rapidamente no interior das cadeias, por exemplo, tirando jovens criminalistas do anonimato em pouco tempo. A rádio cadeia é poderosa e eficiente.

Assim, com a obrigação de não perder, de não errar, de não cair, o jovem advogado consome todas as suas energias em cobranças, em insegurança, em medo e, com isso, a profissão que deveria ser exercida com alegria e entusiasmo, torna-se uma competição de altíssimo nível do advogado consigo mesmo, ou seja, o oponente é a versão perversa do próprio advogado.

O advogado vê-se diante do seu maior inimigo: o espelho.

Mas quando eu digo que a advocacia criminal é difícil, falo também da enorme, gigantesca, quase inalcançável possibilidade de obter vitórias nas ações penais, nos dias atuais. Os tempos estão muito sombrios e o punitivismo é a regra. Dos milhares de requerimentos, pedidos de habeas corpus e recursos interpostos pelas defesas, apenas um percentual realmente pequeno converte-se em decisão favorável ao réu. A regra é o indeferimento, a denegação e o improvimento.

O advogado quer ganhar, mas não consegue. Resultado: frustração.

E ainda tem o desrespeito e do abuso. Não bastasse todas as adversidades, reais e inventadas, ainda somos obrigados a conviver com o mau humor, com a prepotência, com a lentidão, com a incompetência. Peça uma certidão para instruir um HC em um balcão de cartório e você saberá do que estou falando. Ouse divergir da opinião de um delegado arbitrário e você saberá do que eu estou falando. Impeça um juiz prepotente de praticar um ato ilegal no curso de uma audiência e você saberá do que eu estou falando.

O advogado sabe que não é fácil, mas, muitas vezes, parece impossível.

Cansaço, dúvida, insatisfação, medo, angústia, decepção. Com tanto peso para carregar, o criminalista acaba perdendo a alegria de estar na lida da advocacia contenciosa em matéria penal. Afinal, lutar contra as próprias limitações, contra a cultura do medo e da punição, contra o desrespeito e o abuso, significa estar sempre no combate franco e aberto em muitas frentes. E isso cansa. E entristece.

O advogado criminalista deve buscar apoio psicológico e isso não é uma opção. É uma necessidade.

Para ser defensor criminal é indispensável saber lidar com a frustração, mas não é simples lidar com tanta pressão por tanto tempo. Por isso, é importante o criminalista estar aberto para a possibilidade de buscar a ajuda de um profissional da psicologia, mesmo que seja para “refazer as malas que carrega”, como sugere a Psicóloga Mônica Delfino[3]. Pensando nisso, aliás, fiz a proposta para a Marta Echenique[4] montar um grupo de terapia pelo psicodrama exclusivo para advogados, o que foi aceito e está em pleno andamento.

O advogado criminalista deve fazer terapia. Ponto.

Pedro gostou muito da ideia do sorriso forçado. Concordamos que somos nós quem devemos colocar alegria no nosso cotidiano, nas nossas escolhas, no nosso fazer diário. Escolhemos viver sob pressão, sabemos que será assim, temos consciência de que isso faz parte da nossa vida profissional. Pois bem, que seja doce, que seja leve, que seja saudável exercer essa atividade escolhida e conquistada com tanta luta.

Nos despedimos com a questão proposta pelo neurologista do Pedro, que o ajudou a passar por uma crise de stress. Segundo o médico, diante da água, há pessoas que morrem de sede e há pessoas que se afogam.

Termino esse texto com a pergunta: quem és tu?

Mais não digo.


Notas e Referências:

[1] Obviamente, muitos temas não foram contemplados naquele texto, sobretudo porque a advocacia criminal é uma fonte inesgotável de questões.

[2] José Pedro Vianna Zereu é formado em Comércio Exterior e Educador Emocional, diretor da Escola das Emoções em Porto Alegre/RS e Garopaba/SC.

[3] Monica Delfino é psicóloga e diretora da Escola de Criminalistas. Na vivência “(Re)fazendo as malas”, também realizada no Curso de Imersão em Advocacia Artesanal, a psicóloga propôs uma revisão das questões da infância no tocante aos mandatos familiares, utilizando a metáfora da colocação de objetos numa mala de viagem.

[4] Marta Echenique é psicodramatista e diretora do IDH – Instituto de Desenvolvimento Humano em Porto Alegre/RS.


Jader Marques.
Jader Marques é Advogado desde 1996. Especialista e Mestre em Ciências Criminais pela PUC/RS e Doutor em Direito pela UNISINOS/RS. Integra a Associação dos Escritórios de Advocacia Empresarial – REDEJUR, o Centro de Estudos das Sociedades de Advogados – CESA e o Instituto Transdisciplinar de Estudos Criminais – ITEC. Presidente da ABRACRIM-RS.


Imagem Ilustrativa do Post: New York City Street Scenes – Shadows of Business People at Evening Rush Hour, Herald Square // Foto de: Steven Pisano // Sem alterações

Disponível em: https://www.flickr.com/photos/stevenpisano/20545207326

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