A vida é uma história: viva e deixe viver – Por Tiago...

A vida é uma história: viva e deixe viver – Por Tiago Gagliano Pinto Alberto

Por Tiago Gagliano Pinto Alberto – 25/04/2017

A vida é mesmo uma história. Passamos algum tempo com entes queridos, amigos, conhecidos e colegas; curtimos algumas situações, não gostamos de outras; sofremos juntos com alguém, ou sozinhos, no mais recôndito e escondido espaço do próprio eu; torcemos, choramos, sorrimos. Tudo isso ocorre em um pequeno espaço de tempo, insuficiente para dar conta de tudo o que está ao nosso redor. Talvez por isso tenhamos o incessante afã de tentar encontrar algum meio para que a nossa história não termine, nem que para isso muitas vezes tenhamos que inserir um pouco de nós na vida dos outros, totalizando-os de certa maneira. Bem por isso, às vezes sem nos dar conta, inserimos pedaços de nós – o nome, as preferências, os gostos, as ações e até os pensamentos – no espaço vital do outro, querendo que, com isso, não nos percamos no tempo, volvendo simplesmente ao pó que nos originou[1].

Com esse pensamento, Sísifo iniciou mais um dia de trabalho. Aquele dia, particularmente, estava ensolarado na comarca em que atua. Poucas nuvens, calor agradável, temperado com algum frio e o aroma das flores no ar, espalhado pela suave brisa que preenchia todos os espaços do fórum e entrava em seu gabinete, com as janelas abertas deixadas pela senhora que cuida da limpeza.

Ele estava leve; sentia-se assim. Talvez como decorrência do aniversário de um ente querido seu que se avizinhava, ou quem sabe porque simplesmente a vida lhe parecia boa. Trabalhava muito, sofria bastante, fazia da magistratura o seu sacerdócio, mas, apesar disso tudo, era feliz. Não se via fazendo algo diferente, regozijando-se com o que tinha e não ansiando pelo que lhe faltava. Sentia-se como que caminhando no infinito, levado pelo embalo dos casos analisados e do direito adjudicado sempre a quem o ostentava.

Neste clima de paz, felicidade e leveza, abriu o seu computador e, iniciando o programa em que tramitam digitalmente os processos, deparou-se com um curioso caso agora em fase de sentença.

Helena, moça inteligente, culta e com formação superior, apaixonou-se, em certo período de sua vida, por Epícuro, um homem que, em sua formação, era exatamente o oposto: sem qualquer educação afora o primeiro grau e pouco dado ao estudo. Juntos, tiveram uma aventura amorosa que redundou em casamento e nascimento de uma criança, Aquiles, que criaram até os 2 anos de idade, quando então, em virtude da insistência da família de Helena sob a alegação da disparidade de mundos em que viviam Helena e Epícuro, e das brigas constantes do casal, mais oriundas do cansaço no cuidado de uma criança pequena do que da falta de sintonia, divorciaram-se, ficando a guarda compartilhada entre eles.

Epícuro não era uma pessoa ruim. Helena o reconhecia. Porém, realmente não tinham conversa, assunto ou interesses comuns, o que, segundo a família dela, gerava a possibilidade de Aquiles ser criado em um mundo que desconsiderasse estudos, ou esforços para o desenvolvimento mental que lhe garantissem a inserção no mercado de trabalho. No fundo, o divórcio foi mais decorrente da insistência da mãe de Helena, Megera, como a chamava Epícuro, do que pela inconsistência da vida em comum do casal.

Agora, porém, passados 2 anos do divórcio, Aquiles contava com 4 anos e Epícuro já se encontrava em outro relacionamento, cuja esposa não tolerava a criança e, menos ainda, Helena. O que gerou o caso judicial foi de certa maneira a morte de Megera, que, libertando Helena de sua prisão emocional, fez com que ela voltasse a procurar o seu ex-marido, tentando uma reaproximação. Isso, claro, enlouqueceu a nova esposa, que passou a descontar a sua raiva na criança nos momentos em que Epícuro a tinha em guarda. Assim, gritava com o pequeno, brigava por traquinagens diminutas que fazia ou coisas do tipo; nada grave, mas o suficiente para que a criança se sentisse infeliz com a sua presença e, como sempre estava acompanhada também do pai, na presença de ambos, preferindo ficar com a mãe.

Foi dessa maneira que novamente as coisas derruíram entre Epícuro e Helena. O que antes era um amor que gerou uma criança, transformado, pela indireta vontade de terceiros, em briga constante e posteriormente quase reatado pelo afeto existente entre eles, tornou-se, novamente pela indireta totalização de outrem, uma relação de rusgas e inconformidades.

Em certo momento, diagnosticou-se leucemia na atual esposa de Epícuro e, pesquisando-se na família entre os possíveis doadores de medula compatível para o tratamento, encontrou-se apenas na criança o doador viável. O pai apressou-se em pedir autorização em Juízo, que foi contestada pela mãe, dizendo que o seu filho não poderia ser obrigado a doar. Cada qual tecia argumentos de Justiça, alteridade e afins para sustentar que a doação seria ou não possível. No fundo, contudo, o que existia era uma disputa pelo amor de Epícuro, tendo a criança como escusa.

Sísifo logo percebeu o que ocorria no cerne do litígio e, disposto a resolver o caso de uma maneira mais dialógica e menos coercitiva, designou uma audiência, ao revés de simplesmente proferir sentença a respeito.

No dia designado para o ato, reuniram-se na sala de audiências, sob a presidência de Sísifo, o promotor de justiça, Epícuro, com seu advogado, e Helena e o seu advogado. Após as formalidades preliminares, o juiz sugeriu uma conversa sobre a importância das pessoas em nossa vida. Lembrou que a vida passa rápido, que talvez não devêssemos deixar de aproveitar todos os momentos disponíveis com quem de fato amamos e que, independentemente de qualquer credo, estamos no mundo para aprender, o que é possível não apenas pelo enfrentamento de dificuldades, como também da demonstração de amor. Nada comentou a respeito do pedido em si e tampouco dos sentimentos que, na troca de olhares e longas fitadas, percebeu estar ainda presente entre Epícuro e Helena.

O promotor de justiça, por sua vez, lembrou que existia uma criança sendo utilizada para atingimento de fins morais pequenos entre os Litigantes e que isso não seria possível, sobretudo considerando que a saúde de outrem estava envolvida. As Partes ouviram tudo silenciosamente, entreolhando-se a todo momento e pedindo, de maneira um tanto surda, que tivessem alguma oportunidade de viver o infinito juntos, sem quaisquer problemas que os envolvesse, como sempre ocorrera.

Em dado momento do ato, alguém lembrou uma tarde que passaram os pais e a criança, livres das influências de Megera ou da atual esposa de Epícuro. Lembraram-se como o clima era leve entre eles, quando realmente estavam sós, e como se queriam tanto. Talvez esse amor pudesse ser potencializado com a doação da medula, disse Epícuro. Não! Talvez fosse para terem novamente essa tarde, somente para eles três, sem outras pessoas por perto, pensou Helena. A morte da atual esposa certamente contribuiria para isso, agregou mentalmente.

Os debates iam nesse sentido, tendo a criança e a doente como verdadeiros personagens secundários de toda a trama. Tudo mudou, no entanto, com a notícia de que a saúde da esposa de Epícuro deteriorara muito e fora internada às pressas. Neste momento, fez-se necessário uma decisão, que Sísifo não estava disposto a tomar sozinho, porque acreditava na possibilidade de as Partes afastarem a nuvem da ignorância que lhes encobria e exercessem de fato a alteridade.

Nos bastidores, em um tempo de reflexão concedido pelo juiz, um acordo foi construído: Epícuro se divorciaria da sua esposa e, passado algum tempo, retomaria o relacionamento com Helena, que, por sua vez, concordaria com a doação da medula feita por Aquiles, com autorização judicial. Oficialmente, todos concordaram com os termos do pedido inaugural e, diante da aceitação do promotor de justiça, o juiz acatou a postulação, autorizando a realização do procedimento médico.

Sim, de fato, temos que aproveitar o tempo de vida. Mas, a todo custo?

Abraços a todos. Compartilhem a paz.


Notas e Referências:

[1] Nessa semana, está sendo abordada a distinção filosófica entre o “eu” e o “outro” para fins de tomada de decisão, a partir da concepção de totalização sugerida por LEVINAS, Emanuel. Totalidade e Infinito. Lisboa: Edições Almedina, 2016.


Confira a obra de Tiago Gagliano Pinto Alberto publicada pela Editora Empório do Direito:


thiago galiano

Tiago Gagliano Pinto Alberto é Pós-doutor pela Universidad de León/ES. Doutor em Direito pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Mestre em Direito pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Professor da Escola da Magistratura do Estado do Paraná (EMAP). Professor da Escola da Magistratura Federal em Curitiba (ESMAFE). Coordenador da Pós-graduação em teoria da decisão judicial na Escola da Magistratura do Estado de Tocantins (ESMAT). Membro fundador do Instituto Latino-Americano de Argumentação Jurídica (ILAJJ). Juiz de Direito Titular da 2ª Vara de Fazenda Pública da Comarca de Curitiba.


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