A sensualidade da carta de Pero Vaz de Caminha – Por Luiz Ferri...

A sensualidade da carta de Pero Vaz de Caminha – Por Luiz Ferri de Barros

Por Luiz Ferri de Barros – 25/10/2016

Primeiro documento histórico brasileiro, a carta de Pero Vaz de Caminha a El Rey D. Manoel é uma preciosidade literária 

Pero Vaz de Caminha fora designado para ser escrivão em Calecute, nas Índias, e para lá seguia na esquadra comandada por Pedro Álvares Cabral, cuja missão era estabelecer no Oriente uma feitoria para servir de entreposto comercial.

Quando essa armada, a maior até então organizada pelos portugueses, intencionalmente ou por acaso, veio dar às costas brasileiras, o achamento destas terras foi fato tão importante no contexto das disputas entre Portugal e Espanha, então balizadas pelo Tratado das Tordesilhas, que Cabral, após consultar todos os comandantes das naus de sua frota, ordenou que o navio capitaneado por Gaspar de Lemos, em que se carregavam os suprimentos da frota, retornasse a Lisboa para levar à corte a notícia do descobrimento.

Mas não cabia a Pero Vaz de Caminha o dever de escrever ao rei, visto que não era ele o escrivão da armada; e se o fez, consta ter sido por própria iniciativa, como assevera já no início da missiva: “Posto que o capitão-mor desta vossa frota, e assim os outros capitães, escrevam a Vossa Alteza a nova do achamento desta vossa terra nova, que nesta navegação agora se achou, não deixarei também de dar conta disto a Vossa Alteza, o melhor que puder, ainda que, para o bem contar e falar, o saiba fazer pior que todos”.

Não obstante a cerimoniosa modéstia do escrivão, essa carta que não lhe fora encomendada nem era de sua competência escrever, escrita ao estilo de um diário, foi a que ficou para a história – por ser o mais brilhante documento do descobrimento, a “certidão de nascimento” do país, como já se disse – nosso primeiro documento histórico, nossa primeira peça literária, uma crônica memorável do primeiro olhar dos portugueses a nossa terra e nossa gente.

Há quem diga que Caminha teria escrito ao rei apenas com vistas a, no fim do relato, pedir pelo genro ao soberano, nos seguintes termos: “E pois que, senhor, é certo que, assim neste cargo que levo, como em outra qualquer coisa que de vosso serviço for, Vossa Alteza há de ser de mim muito bem servida, a ela peço que, por me fazer graça especial, mande vir da ilha de São Tomé a Jorge de Osório, meu genro – o que dela receberei em muita mercê”.

A passagem se prestou a polêmicas. No Século XX, muitos estudiosos opinaram que Caminha estivesse pedindo ao rei emprego para o genro, o que deu pano para manga às teorias de que o nepotismo e a corrupção brasileiros fincavam estaca já no nascedouro da nação, conforme para isto serviria de prova tal citação da carta de Caminha a El Rey D. Manoel.

No entanto, há outra interpretação, mais plausível, dando conta que o escrivão não solicitava ao rei um cargo e, sim, de fato requeria a El Rey que perdoasse o genro do desterro na ilha de São Tomé, onde cumpria pena por haver assassinado um padre. Em muitos casos, o desterro, inclusive podendo ser vitalício, era pena que apenas poderia ser comutada por meio de um perdão especial do rei, um indulto, sendo esse o sentido legal e jurídico da “graça especial” que em nome do genro o escrivão demandava ao soberano.

Poucos meses depois, em reconhecimento aos serviços prestados à coroa, D. Manoel concedeu o perdão solicitado – ao saber que Pero Vaz de Caminha fora um dos portugueses mortos no ataque árabe-indiano à feitoria de Calecute.

Tortuosa foi a trilha percorrida pela carta de Caminha de 1500 a nossos dias. Inicialmente Portugal guardou segredo do descobrimento do Brasil, sendo que D. Manoel apenas cerca de um ano depois, de passagem, mencionaria o fato em correspondência a seus sogros e rivais, os reis de Espanha; embora esses naturalmente tivessem meios de o saber por conta própria. De toda sorte, a carta de Pero Vaz de Caminha foi mandada a arquivo na Torre do Tombo, onde permaneceu esquecida por mais de duzentos e cinquenta anos, até 1773, tendo sido nesse ano copiada por ordem do guarda-mor da Torre, José Seabra da Silva.

Essa cópia foi trazida ao Brasil na bagagem da família real, em 1808, e guardada no Arquivo do Rio de Janeiro, para em 1817 ser incluída pelo padre Aires do Casal na publicação Corografia Brasílica, um dos primeiros livros editados no Brasil. Porém, nessa oportunidade, o padre censurou o texto de Caminha, suprimindo trechos que, a seu critério, “ofendiam o decoro”, tal como a descrição detalhada da nudez das moças índias.

No Século XX surgem várias edições da carta de Caminha, transcritas para o português moderno a partir do texto original. Tais versões podem ser encontradas na internet, sendo a versão de Jaime Cortezão, de 1943, uma das que se destacam. Rubem Braga, em 1981, também apresentou uma versão moderna do texto e esta pode ser encontrada em formato de livro.

As descrições da nudez inocente dos índios e das índias, aquelas que foram censuradas pelo padre Aires do Casal, são apresentadas por Caminha por vezes de forma naturalística, por vezes de forma quase que mística e religiosa, quando em explícita comparação à imagem de Adão e Eva. No entanto, permeiam subliminarmente às descrições dessa nudez a observação e o enlevo do narrador frente a uma sensualidade vigorosa que o atrai e seduz.

As lindas índias são encantadoras aos olhos dos portugueses e desse fato é revelador o que diz o escrivão ao compará-las com as mulheres portuguesas, quando, de forma quase atrevida, escreve ao rei que “uma daquelas moças era toda tingida, de baixo a cima daquela tintura; e certo era tão bem feita e tão redonda, e sua vergonha (que ela não tinha) tão graciosa, que a muitas mulheres de nossa terra, vendo-lhe tais feições, fizera vergonha, por não terem a sua como ela”.

A beleza das jovens índias nuas, “cujas vergonhas de tão inocentes não nos causavam vergonha” é parte do que há de mais belo, importante e revelador no documento. A elas o narrador fará reiteradas referências em sua carta, atestando assim o seu encantamento.

As índias se revelam especiais ao primeiro olhar e foram as intensas menções a elas na carta que levaram o texto a ser censurado, como já vimos. A atração carnal com que os lusos viriam depois sucumbir às indígenas durante os anos da colonização, e a discreta forma com que sua nudez é relatada por Caminha, enfatizando o bordão “vergonha inocente que não nos causa vergonha”, são chave para compreender nossas origens.

Fica antevisto como a colonização portuguesa se dará no Brasil, em duplo jogo de poder; de um lado a força do domínio conquistador europeu, de outro, a irresistível sensualidade tropical de nossas índias que, seduzindo o conquistador conquista-o para enredá-lo na trama da hereditariedade mestiça fundadora da nação.

O escrivão, pela beleza literária que evoca em tudo o que com cadência descreve e narra, mais tece uma pintura do que avia um relatório. Na carta Pero Vaz de Caminha descreve a terra, as matas, as águas, os bichos… e o ouro que aqui não há! Dá o testemunho de quantas vezes e por quantas formas o português arguiu o índio sobre o ouro e a prata de sua obsessão. Mostra igualmente a forma com que os navegadores lusos se utilizavam dos degredados que traziam a bordo, mandando-os, por exemplo, em missões arriscadas de reconhecimento e deixando-os, ao partir, para aprender a língua e a cultura dos indígenas.

Como acima já indiquei, Pero Vaz de Caminha descreve principalmente as gentes; os homens e as mulheres que os portugueses aqui encontraram, e os interpreta. Ele relata a aproximação pacífica que se deu entre os guerreiros lusitanos e os guerreiros índios; de como ambos não se valeram de armas, logo partindo para contatos próximos, selando amizade por meio de leves escambos e de celebrações marcadas por rituais de comilanças, músicas e danças.

Também a primeira missa em terras brasileiras é descrita.

O escrivão tudo relata de maneira direta e objetiva; seu deslumbramento ele tenta disfarçar. Não se esquiva da interpretação do que vê. Jamais perde a lucidez. Não teme apresentar ao rei conselhos que não lhe foram solicitados a propósito de assunto que, supõe-se, não lhe dizia respeito; por exemplo, declarando sua opinião sobre como deveria agir a Coroa para a colonização desta terra e seu gentio. Com sinceridade Caminha escreve que “[os índios] são muito mais nossos amigos que nós seus”, testemunhando a El Rey sua conclusão, quando os índios e os portugas juntos já celebravam e dançavam.

Tendo Caminha iniciado seu relato em 22 de abril de 1500, quando se avistou a terra e se fundearam os navios longe da costa, nos dias seguintes, 23, 24 e 25 de abril, ele relata a aproximação dos navios para ancoragem e a busca por melhor porto, assim como os primeiros contatos com os índios. Mas foi apenas a partir do quarto dia, 25 de abril, que as índias se mostraram, ou que Caminha perde o pejo de registrar sua presença entre os guerreiros índios, relatando a El Rey a realidade como ela é: “Ali andavam entre eles [índios] três ou quatro moças, bem moças e bem gentis, com cabelos muito pretos e compridos pelas espáduas, e suas vergonhas tão altas, tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que, de as muito bem olharmos, não tínhamos nenhuma vergonha.”

O contato de Pedro Álvares Cabral não foi com pequeno grupo de indígenas. Em 30 de abril, dia final dos preparativos da cruz a ser erguida no dia seguinte para a primeira missa, registrou Pero Vaz de Caminha: “Andariam na praia, quando saímos [do navio], oito ou dez deles; e de aí a pouco começaram a vir mais. E parece-me que viriam, este dia, à praia quatrocentos ou quatrocentos e cinquenta [índios].”

Pero Vaz de Caminha atesta que da celebração da primeira missa participaram cinquenta ou sessenta índios, sem deixar de assinalar, ao jeito como amiúde fez no decorrer de seu relato, a presença feminina, ao afirmar que “[…] entre todos estes que hoje vieram, não veio mais que uma mulher moça, a qual esteve sempre à missa e a quem deram um pano com que se cobrisse. Puseram-lho a redor de si. Porém, ao assentar, não fazia grande memória de o estender bem, para se cobrir. Assim, Senhor, a inocência desta gente é tal que a de Adão não seria maior, quanto a vergonha.”


Originalmente publicado na Revista da OAB / CAASP. Ano 3. Nº 12. São Paulo, agosto de 2014.


Luiz Ferri de Barros é Mestre e Doutor em Filosofia da Educação pela USP, Administrador de Empresas pela FGV, escritor e jornalista.

Publica coluna semanal no Empório do Direito às terças-feiras.

E-mail para contato: barros@velhosguerreiros.com.br.


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