A Sangue Frio – O retrato realista e discreto de um crime...

A Sangue Frio – O retrato realista e discreto de um crime brutal – Por Luiz Ferri de Barros

Por Luiz Ferri de Barros – 09/08/2016 

Baseado no clássico livro de Truman Capote, o filme relata a história real de um crime paradoxal, um “assassinato sem motivo aparente”.

A Sangue Frio, filme de 1967 dirigido por Richard Brooks, é um clássico que não envelhece e que com o passar dos anos fica melhor, em especial pelo contraste com as produções atuais.

Se o cinema contemporâneo, mesmo quando totalmente ficcional, precisa valer-se da violência explícita, quando não ininterrupta, e da ação desenfreada para eletrizar o público, é marcante a forma discreta e sóbria com que esse drama policial retrata uma chacina real.

Baseado no livro homônimo de Truman Capote, A Sangue Frio descreve um crime paradoxal, o “assassinato sem motivo aparente”, e o faz de forma duplamente original.

O filme narra o assassinato brutal, ocorrido numa fazenda, de uma família por dois ex-presidiários, a investigação do crime, a captura dos assassinos, os interrogatórios, o julgamento, sua condenação à pena de morte e a execução. Pretendendo roubar 10 mil dólares, os criminosos assaltaram a casa e, ao nada encontrarem, mataram todos.

A originalidade primordial da história é dada pela natureza do livro de Truman Capote. Para tentar entender a motivação por trás de tal “assassinato sem motivo”, o escritor mudou-se para a cidade onde estavam presos os criminosos e, frequentando a cadeia, estabeleceu, em especial com um deles, estreita relação pessoal. Retratar a personalidade dos criminosos foi um de seus objetivos.

A partir da estreita confiança estabelecida, Capote levantou minuciosos dados biográficos dos criminosos e dos detalhes e fatos relacionados ao crime. Tão logo os assassinos foram enforcados, seu livro foi publicado e, com imediato sucesso mundial, passou a ser considerado a obra fundadora do jornalismo literário. A história de como Truman Capote escreveu este livro é narrada em outro filme excepcional, Capote (2006), estrelado por Philip Seymour Hoffman.

Neste ponto é preciso observar que jornalismo literário é uma expressão utilizada principalmente para caracterizar o estilo, a linguagem e a forma de narrativa de uma reportagem, não representando necessariamente falta de realismo ou rigor na apuração dos fatos.

Se o livro é uma obra prima de jornalismo literário, transposto ao cinema tornou-se um filme-reportagem, com narrativa envolvente e cadenciada, originais recursos dramáticos, de fotografia e trilha sonora, porém em nada menos sério do que seria um bom documentário no que se refere à precisão dos fatos.

O filme foi rodado usando os locais dos fatos ocorridos, em todos os detalhes. A casa onde a chacina ocorreu foi utilizada para a filmagem das cenas do crime. O julgamento dos assassinos foi filmado no mesmo tribunal e, não bastasse isto, no filme vários dos jurados são os mesmos que fizeram parte do júri real. Até uma pequena sequencia rodada numa estação rodoviária é filmada no mesmo local onde se deram os fatos.

Richard Brooks convidou para os papéis chave atores com acentuada semelhança física com os criminosos e com o principal investigador. É nítido que uma das intenções do diretor nesta produção foi tratá-la como se fora uma reconstituição, ampliando-a, porém, para muito além da cena do crime.

Quanto ao dilema original, por meio de flash backs que perpassam a narrativa, fica sugerido que o motivo do crime seria a história familiar desajustada dos assassinos. Mas essa conclusão não é linear.  Afirma-se também que nenhum dos dois homens sozinhos cometeria aquele massacre, por mais transtornadas que fossem suas personalidades. Juntos, comporiam uma terceira personalidade, esta sim com o brutal potencial assassino.

A direção de Richard Brooks, que também assina o roteiro, é competente e precisa. A harmonia da edição das imagens com uma brilhante trilha sonora resulta em efeitos artísticos extraordinários, o que já se percebe nas sequencias iniciais acompanhadas por música dissonante com leve fundo jazzístico.

O filme consegue ser sutil e discreto porque, diferentemente do que se faz hoje, deixa de mostrar tudo aquilo que para ser compreendido basta insinuar.


Originalmente publicado na Revista da OAB/CAASP. Ano 5. nº 24. Agosto de 2016.


Luiz Ferri de Barros é Mestre e Doutor em Filosofia da Educação pela USP, Administrador de Empresas pela FGV, escritor e jornalista.

Publica coluna semanal no Empório do Direito às terças-feiras.

E-mail para contato: barros@velhosguerreiros.com.br.

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Imagem Ilustrativa do Post: “Casa de Manhufe” kitchen – Amadeo Souza Cardozo painting // Foto de: Pedro Ribeiro Simões // Sem alterações

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