A corrupção e nossos rombos que já estavam lá – Por Maíra...

A corrupção e nossos rombos que já estavam lá – Por Maíra Marchi Gomes

Por Maíra Marchi Gomes – 21/03/2016

O amor que eu dei não foi o mesmo que eu vi acabar
O amor só mudou de cor
Agora já tá desbotado

Seu Jorge

É praticamente impossível não falar algo, qualquer que seja, sobre corrupção nestes tempos e lugares por onde transitamos. Sobre ela, há muito o que se dizer e também o que não se dizer. De minha parte, convido-os a questionar se nosso assombro perante provas irrefutáveis de corrupção não se dá justamente porque de alguma maneira sabemos que o mais esperado, em lugares de poder, é a corrupção. Talvez nos surpreendamos é com o fato de, às vezes, alguém não conseguir velar isto que todos sabem. Com o fato de alguém quebrar o pacto de não se assumir corruptor e corrompido, abalando sem vergonha nossa crença de que nossa relação com o poder é ética.

Ela até pode ser ética em algum nível, em alguma área da vida, mas ninguém é ficha branca se apurarmos nossa relação com o poder (enquanto a ele submetidos e enquanto dele detentores). Para falar disto, falemos do cotidiano, não apenas para facilitar a compreensão, mas para retirar o estatuto de excepcionalidade da corrupção. E falemos de como ela se mostra em relações amorosas, por dois motivos:

1) É mais fácil nos identificarmos caso se mostre que o corrompido e corruptor é como nós, e não alguém que quer vida mansa ou psicopata (afinal, com quem entra em campo com este tipo de camisa, a única alternativa é jogar dentro das regras próprias a julgamentos morais e patologizantes).

2) Falaremos aqui da corrupção a partir das relações entre amor e ódio.

Neste sentido, vejamos, por exemplo, a quê nos submetemos para nos sentirmos amados pelo outro. Vejamos, como outro exemplo, a quê submetemos o outro para nos sentirmos amáveis. Também vejamos o que chamamos de “educação” (logo, algo bom!) de crianças para não admitirmos que não temos poder pleno sobre si. É o discurso de que a criança pediu para apanhar, substituindo a constatação pelo adulto de que ele não soube lidar consigo próprio (cansaço, irritação, preocupação, etc.). Vejamos, por fim, as fofocas, puxadas de saco e portanto falsas amizades no ambiente de trabalho em nome da ideia de que lá só se consegue o que se precisa se investir nas “redes”, de que precisamos nos cercar de pessoas “alto-astral” e/ou de que o “clima” no ambiente de trabalho precisa ser bom. Tudo isso está em nome, mais fundamentalmente, de compactuarmos com o poder que nós próprios compreendemos ser exercido de maneira não ética.

Freud (1930/1974, p.133) pode nos auxiliar nesta discussão, ao propor uma concepção de humano que não é todo altruísta. É aqui, pela primeira vez, que o autor afirma a autonomia da destrutividade em relação à sexualidade, o que complementa suas considerações até aquele momento de que o ódio pode ter uma função no amor. Nesta obra, ele não discorre sobre como a destrutividade é influenciada (ou pelo menos desencadeada) pelo poder. No entanto, seu conceito é fundamental para continuarmos com a discussão deste escrito. Em suas palavras:

O elemento de verdade por trás disso tudo, elemento que as pessoas estão dispostas a repudiar, é que os homens não são criaturas gentis que desejam ser amadas e que, no máximo, podem defender-se quando atacadas; pelo contrário, são criaturas entre cujos dotes instintivos deve-se levar em conta uma poderosa quota de agressividade. Em resultado disso, o seu próximo é, para eles, não apenas um ajudante potencial ou um objeto sexual, mas também alguém que os tenta a satisfazer sobre ele a sua agressividade, a explorar sua capacidade de trabalho sem compensação, utilizá-lo sexualmente sem o seu consentimento, apoderar-se de suas posses, humilhá-lo, causar-lhe sofrimento, torturá-lo e matá-lo. Homo homini lupus. Quem, em face de toda sua experiência da vida e da história, terá coragem de discutir essa asserção?

Há algo em nós, portanto, que não se preocupa em ser amado. Freud cita algumas de suas manifestações, mas penso em outra: naqueles neuróticos (para nos contentarmos com o trivial) que não se preocupam em se utilizar da vulnerabilidade de alguém apaixonado para comprovar com menos obstáculos seu poder de sedução. Algo desesperadamente feito por sujeitos que têm dúvidas se são amáveis, trazidas por suas relações passadas com figuras parentais. Tais sujeitos não se preocupam se aquele com que se relaciona pode vir a se entristecer ou enraivecer, porque o amor que busca não é o dele. É o de papai e mamãe (ou quem o tenha representado). Por isso não se preocupa com os efeitos do desvelamento das mentiras que conta ao que por ele está apaixonado: ele quer ser amado, mas não por quem agora se relaciona. Quer ser amado, mas não como adulto, mas sim como criança.

É esta mesma parcela que é indiferente ao amor que o outro possa ter por nós que é capaz de bater em crianças, acreditando que o fato de ela lhe atender a partir disto é um sinal de que ela compreendeu a legitimidade da ordem adulta. São sujeitos que não se importam em saber que a criança acata a ordem após ser agredida porque foi convencida, com o toque violento no corpo, que perdeu o amor do cuidador. Seu desespero em atender justamente aquilo que o cuidador diz dele esperar dá-se porque lhe parece, naquele momento, ser o meio de reconquistar o amor perdido. Bom…há adultos que não se importam nem mesmo em saber desta vivência psíquica torturante e cruel, e continuam acreditando que batem num ato de bondade para com os filhos. Sim…há quem justifique a tortura.

Rosa (2007, p.74) caminha na mesma direção, ao lembrar que quando há uso da força, não há autoridade, para propor que atualmente há um apelo pela força. Partindo desta idéia, em sua análise ela diz:

Justamente coincidindo com a perda da autoridade, indispensável como atributo da função paterna, instala-se na sociedade pós-moderna o autoritarismo de um poder hegemônico de uma única nação, mais rica e mais tecnológica, a impor normas, “democracia”, comportamentos, sanções econômicas, além de guerras e métodos bárbaros de tortura, culminando com a obrigatoriedade do estudo do criacionismo nas escolas, violência explícita ao progresso científico e à teoria de Darwin da evolução das espécies

Resta-nos indagar quem está a salvo da corrupção num planeta em que há nações (a autora claramente se refere aos EUA) que se propõem a deter um discurso único? E mais: num planeta em que há nações hegemônicas que legitimam a estrutural dificuldade humana em suportar o outro, frente a qual a civilização deveria justamente fazer frente?

Talvez nós humanos estejamos abdicando em certa medida do amor, por medo do que o ódio com ele poderia fazer. Desacreditando do amor, talvez. O pai da psicanálise não esperava essa saída, ainda que esperasse que sofreríamos de insegurança sobre a potência do amor em relação à potência do ódio. Em seus termos:

A questão fatídica para a espécie humana parece-me ser saber até que ponto seu desenvolvimento cultural conseguirá dominar a perturbação de sua vida comunal causada pela pulsão de agressão e autodestruição […]. Os homens adquiriram sobre as forças da natureza um tal controle que, com sua ajuda, não teriam dificuldades em se exterminarem uns aos outros, até o último homem. Sabem disso e é daí que provém grande parte de sua atual inquietação, de sua infelicidade e de sua ansiedade. Agora só nos resta esperar que o outro dos dois “poderes celestes”, o eterno Eros, desdobre suas forças para se afirmar na luta com seu não menos imortal adversário. Mas quem pode prever com que sucesso e com que resultado? (Freud, 1930/1974, p. 170).

De fato o ódio exige-nos menos. É um verbo intransitivo. Odeia-se, e frente a isto resta encontrar qualquer via de investimento. Já o amor, exige-nos uma eleição. É um verbo transitivo. Sempre se sabe dizer por que se ama. E nunca se sabe dizer por que se odeia.

Convive-se com amor e ódio em todas as nossas relações, e o amor só surge para que o ódio não acabe conosco. Não nascemos sabendo amar. Passamos a amar porque nossa fragilidade física impele-nos ao outro. Depois, conforme crescemos, o amor vai nos mostrando outros ganhos, e passamos a não apenas confirmar que o outro é interessante, mas que a vida o é. Portanto, o outro sempre nos é um objeto. E sempre somos um objeto para o outro. Isto não pode ser pensado por uma lógica moral, que pensaria em relações utilitárias no mau sentido. Simplesmente é assim, no caso dos humanos. E talvez seja até admirável constatarmos como, tendo tudo para desejarmos morrer, alguém por nós usado na tentativa de encontrar sentido na existência é capaz de nos convencer.

No caso da corrupção, ela parece ser um regresso. Uma desistência. Um em-si-mesmamento. E algo que se alastrou. Senão vejamos a seguinte passagem:

A corrupção rompe a cadeia do desejo, originando buracos negros e vazios representacionais que se refletem na cultura da superficialidade e do descartável, submundo do espetáculo de temas fúteis, na ideologia do “quanto pior, melhor”. A corrupção é, assim, o ponto central, a pedra angular do regime imperial. Ela está nos lobbies dos burocratas, nas classes emergentes ansiosas por ascensão social, nas religiões fundamentalistas, nas terapias alternativas enganadoras, que bloqueiam a subjetividade. Além disso, a corrupção está sempre presente no mundo da política, contaminando, como uma epidemia por vírus mortal, as estruturas mais diversas da sociedade. Ela é um ataque ao poder gerador da vida e um insulto aos valores éticos da comunidade produtiva (Rosa, 2007, p.75)

A corrupção está em nós, toda vez que covardemente abandonamos o amor e aceitamos a proposta de casamento que nunca deixamos de receber do ódio. Não é ao acaso que, abordando a corrupção em seu sentido mais habitual (em instituições públicas), Minerbo (2007) compreende que o que se corrompe é o sistema simbólico representado pelo sujeito. Seu efeito seria o esvaziamento semântico e a fratura do símbolo, e seu início dar-se-ia quando o representante da instituição sustenta simultaneamente duas lógicas excludentes: a da esfera pública e da privada.

São aqueles momentos em que não se separa o umbigo do resto do mundo, porque se entregou ao ódio. O outro, e muito menos a vida, deixa de ser o objetivo da caminhada. Vai-se em direção à morte (subjetiva) de si, porque se desamparados do outro, é este nosso destino. Corrompe-se porque corrompeu. Tira-se o amor de si, porque tirou do outro. Pretende-se seguir só com ódio e vazio. Perceba-se que é um movimento oposto ao dos momentos iniciais de desenvolvimento. Daí a noção de corrupção como um regresso. Até porque o radical “co” permite-nos pensar que se pressupõe uma companhia. Algo feito em conjunto. Alguma alteridade antes constituída.

A corrupção acontece naqueles momentos em que se pretende transformar o ódio em verbo transitivo, procurando justificar a desconsideração ao outro. Disto não há o que se falar. Todos sabemos que odiamos o outro. Do que se pode falar é porque o amor não foi capaz de balizar o ódio. No entanto, estes momentos também são aqueles em que se toma o amor como verbo intransitivo. É quando se fala de amor daquela maneira genérica e universal, do tipo “amo o próximo”. É quando não se sabe dizer porque se ama alguém. É quando o amor não faz sentido, e o ódio sim.


Notas e Referências:

Freud, Sigmund. (1974/1930). O mal-estar na civilização. In S. Freud, Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, v. XXI. Rio de Janeiro: Imago.

Minerbo, Marion. (2007). A lógica da corrupção: um olhar psicanalítico. Novos Estudos Cebrap, 01 November (79), 139-149.

Rosa, Laura Ward da. (2007). A prática clínica e a ética freudiana em tempos de corrupção. Revista Brasileira de Psicanálise41(2), 71-77. Recuperado em 20 de maro de 2016, de http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0486-641X2007000200007&lng=pt&tlng=pt.


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Maíra Marchi Gomes é doutoranda em Psicologia, mestre em Antropologia pela Universidade Federal de Santa Catarina e Psicóloga da Polícia Civil de SC.  

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