A castração da imaginação e os Etapismos de um Amanhã prolongado, eternizado,...

A castração da imaginação e os Etapismos de um Amanhã prolongado, eternizado, que nunca vem: imaginação capturada e ativadora de novas-velhas capturas – Por Guilherme Moreira Pires e Patrícia Cordeiro

Por Guilherme Moreira Pires e Patrícia Cordeiro – 20/03/2016

“A castração da linguagem é um modo de fechar nossos olhos […] Ela é uma armadilha preparada ao desejo, petrificando o seu processo. Como consumidores de significados castrados, vamos nos distanciando de nossos desejos, sentindo medo […]”

Warat

Em outras ocasiões destacamos o amoldar e as versatilidades de múltiplos controles, sequestros e capturas atrelados ao poder punitivo e culturas repressivas (versatilidade também discursiva de sistemas capazes de se amoldarem para se perpetuarem, entre promessas, profecias e sacrifícios, reciclando e mesmo sacrificando espaços quando necessária alguma concessão para a perpetuação e expansão das capturas e controles incidentes sobre a concretude da vida); sobre a história, dinâmica, fluxos e influxos desse aludido poder punitivo; sobre a importância de potências, resistências e dissidências atuantes no presente, atuações não totalizantes e não colonizadoras de mundos, não estáticas (resistências-movimento) e dessa forma, não complacentes às várias violências cultivadas, replicadas, concebidas nessas teias, campos e redes, entre múltiplos discursos legitimantes que vão se reciclando na história do cárcere, inclusive como técnica planetária de controle social.

Ante tamanha versatilidade, alcance e abrangência de controles, para além de demarcações rígidas em zonas delimitadas, para além da eleição de uma única via de atuação, para além de pensamentos voltados ao futuro distante; nos preocupa sobremaneira como as ditas potências, resistências, dissidências ao poder punitivo e culturas repressivas reiteradamente replicam e constroem suas movimentações em uma linguagem hierarquizada demasiada etapista, a ponto de repetir ordens e sequências extremamente fechadas, que, além de não acompanharem a velocidade e incidência dos controles, muitas vezes revelam-se completamente ilógicas.

Ao freneticamente buscarem mapear e hierarquizar que arranjos de forças governam suas movimentações, chega-se ao extremo de determinar estranhíssimas restrições desfiguradoras de lutas, e que no limite até rivalizam importantes lutas, com fechamentos destrutivos, enunciados altivos, programações robotizadas, movimentações hierarquizadas.

Enquanto se sonha com o amanhã que não vem – menosprezando a importância de movimentações libertárias no presente – a versatilidade de controles larga na frente, incidindo sobre esse presente sacrificado, tragando e capturando com sua linguagem mesmo as potências, dissidências, resistências e oposições deslegitimantes do poder punitivo, pretensiosamente mapeadoras e demarcadoras de equações, por sua vez demarcadoras de poderes e lutas; agora não apenas conjuradores resistentes às capturas, castrações e incidências do poder punitivo, mas adeptos que naturalizaram e agora também são cultura repressiva e linguagem punitiva; linguagem que não se trata de algo acessório que se carrega no bolso, mas que constitui a integra o ser.

Ordens, sequências, fechamentos, hierarquias em cada nuance.

Antes X. Primeiro Y. Pela única via Z.

Entre exemplos comuns: (a) é *mais importante* falar de racismo que de machismo (também se repete o contrário – afinal, é mesmo preciso hierarquizar isso, e dessa forma?); (b) só adianta pensar em abolição das prisões após a abolição do racismo (antes necessariamente não); (c) apenas se pode ousar pensar em abolição das prisões após a abolição do capitalismo – antes, jamais; assim até parece que são coisas antagônicas que não se energizaram, se alimentaram e cresceram juntas, sendo o poder punitivo não qualquer elemento das culturas repressivas, mas provavelmente o elemento estruturador mais crucial no redesenhar do antigo diagrama de poderes que implicaria no poder nas mãos do Estado, sedimentando-se paralelamente aos conceitos de capitalismo, Estado, redefinição moderna de palavras como “justiça” e “ordem” brutalmente contaminadas pelos fluxos de controles, compreensão de monarquia no paradigma da soberania que se manteria mesmo após a abolição das monarquias etc.

Freneticamente almejar estabelecer um “ranking” de importância entre capturas, controles, arbitrariedades e opressões – mesmo quando indissociavelmente entrelaçadas – pode ser outro sinalizador, uma espécie de termômetro, da profunda incapacidade de inteligentemente interpretar, responder, reagir às versatilidades dessas complexas teias de capturas e controles.

Mas incapacidade é uma palavra forte; melhor seria substituí-la, acima, por dificuldade, de modo que ainda contamos com a possibilidade de novas linguagens e mundos; e nesse sentido são os esforços e apelos que desejamos transparecer, o que, insistimos, por vezes demanda algum esforço.

Respostas mágicas para a complexidade da vida não cairão sobre nossas cabeças – o que vocês consumirão, se fascinados pela linguagem hierarquizada dos controles, serão reações sistêmicas codificadas produtoras de mais violências e sofrimento estéril.

Esses que aguardam tal cenário de respostas artificialmente prontas –expectativa de produção contemplada seja ante um fenômeno místico ou pela boca dos especialistas –  encontrarão tão somente falsas promessas e, no final, mostrar-se-ão consumidores de significados castrados, tais quais os mencionados na abertura do texto. Consumidores energizadores de linguagens punitivas e culturas repressivas, e que carregam tais marcas e pesos no dia-a-dia, alimentando mundos melancólicos.

A questão criminal não exaure o mundo, mas tem a ver com esse mundo, e seguramente influi em demasia sobre cada uma dessas facetas mencionadas, que não encontram-se desconectadas, ou em uma hierarquia tão facilmente insculpida como pretendem aqueles aos quais suas lutas são as únicas possíveis.

A necessidade de uma desestabilização libertária nos fluxos de controles aludidos, com fissuras abrangendo a abolição do sistema penal, profundamente incidente sobre toda a atual diagramação de poderes, não merece ser subestimada; ela reverbera em cada luta libertária.

Potências, resistências e dissidências libertárias, frentes de oposição ao poder punitivo, que nossos pontos de convergência e oposição às múltiplas estratégias de culturas repressivas não amplifiquem capturas e controles, não instiguem danos, dores e sofrimentos; não sejamos escravizadores replicantes de movimentações, hierarquias e sobreposições totalizantes.

Independente de nossas diferenças (várias), não nos matemos.

Não nos empacotemos em microscópicas caixinhas com movimentações circunscritas e experimentações pré-estabelecidas, reféns e carentes de manuais que nos ditem como artificialmente agir e sentir antes mesmo da concretude de uma situação problemática que sequer ocorreu.

Não entendamos a vida como um jogo.

Não peçamos todas as respostas, especialmente antes das perguntas, e ainda mais quando mostrarem-se equivocadas as perguntas. Questionemos as próprias perguntas.

Movimentações demandam pensamento que demandam linguagem. “A teoria”, como muito se repete em tom de crítica, pode revelar-se mais potente e menos apática do que pretendem seus opositores.

No final, ainda depende das pessoas.


Notas e Referências:

ANITUA, Gabriel Ignacio. Histórias dos pensamentos criminológicos. Trad. Sérgio Lamarão. Instituto Carioca de Criminologia. Rio de Janeiro: Revan, 2008.

AUGUSTO, Acácio. Política e polícia: Cuidados, controles e penalizações de jovens. Rio de Janeiro: Lamparina Editora, 2013.

CORDEIRO, Patrícia. PIRES, Guilherme Moreira. E se você não tivesse que escolher entre abolicionismo e feminismo? Disponível em: http://emporiododireito.com.br/e-se-voce-nao-tivesse-que-escolher-entre-abolicionismo-e-feminismo// ISSN 2446-7405. Acesso em: 28/01/2016.

PASSETTI, Edson. AUGUSTO, Acácio. Anarquismos & Educação. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2008.

PIRES, Guilherme Moreira. Abolicionismos e Anarquismos: potências, dissidências e resistências. Complexidades para além das leis e da Prisão-Prédio. Disponível em: http://emporiododireito.com.br/abolicionismos-e-anarquismos-potencias-dissidencias-e-resistencias-complexidades-para-alem-das-leis-e-da-prisao-predio-por-guilherme-moreira-pires/ ISSN 2446-7405. Acesso em: 18/01/2016.

PIRES, Guilherme Moreira. Abolicionismos entre disputas, controles, capturas e cruzadas: militantes ou militares? Disponível em: http://emporiododireito.com.br/abolicionismos-entre-disputas-controles-capturas-e-cruzadas/ ISSN 2446-7405. Acesso em: 16/01/2016.

PIRES, Guilherme Moreira. Símbolos, linguagem e poder: análise da coesão forjada a partir de uma perspectiva anarquista (e abolicionista). Disponível em: http://emporiododireito.com.br/simbolos-linguagem-e-poder-analise-da-coesao-forjada-a-partir-de-uma-perspectiva-anarquista-e-abolicionista-por-guilherme-moreira-pires/ ISSN 2446-7405. Acesso em: 13/01/2016.

WARAT, Luis Alberto. Territórios desconhecidos: a procura surrealista pelos lugares do abandono do sentido e da reconstrução da subjetividade. Florianópolis: Fundação Boietux, 2004.


GUILHERME MOREIRAGuilherme Moreira Pires é advogado, doutorando em Direito Penal.  Autor dos livros: “Desconstrutivismo Penal: uma análise crítica da expansão punitiva e dos mutantes rumos do direito penal” (2013); “O Estado e seus inimigos: Multiplicidade e alteridade em chamas” (2014) e “Os amigos do Poder: ensaios sobre o Estado e o Delito a partir da Filosofia da Linguagem”(2014). Co-autor do livro “Brasil em Crise” (2015). Co-fundador do Instituto Capixaba de Criminologia e Estudos Penais (ICCEP). Abolicionista e anarquista. Grupo Abolicionismo Penal – América Latina https://www.facebook.com/groups/673508846078451/?fref=ts.
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Patricia Cordeiro

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Patrícia Cordeiro é graduanda em Direito e Comunicação Social – Jornalismo.
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